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Jornalismo

entrevista

Tempos de renovação


Secretaria da Comunicação vive nova fase com gestão direta dos serviços de comunicação e investimento em internet


Inês Pereira

Dois anos antes de finalizar o Governo Lula, Ottoni Fernandes Jr., ainda tem muitos planos para aperfeiçoar a atuação da Secretaria da Comunicação da Presidência da República (Secom). À frente da gestão, como secretário executivo, ele pretende criar uma carreira para o profissional da Comunicação Pública, que seja contratado por concurso público e possa freqüentar cursos de formação e aperfeiçoamento. "Faz falta um profissional especializado em Comunicação Pública, que seja um guardião do conhecimento coletivo, da experiência acumulada, que  também funcione como gestor dos contratos licitados de assessoria de comunicação", descreve.

Ottoni, que iniciou a vida profissional nos laboratórios de Física da Universidade de São Paulo (USP), militou na resistência à   ditadura. Atuou em guerrilha e foi preso político - seu livro O Baú do Guerrilheiro, Memórias da Luta Armada (Editora Record, 304 págs.), lançado em 2004, registra tudo. Em 1977, deu uma guinada na carreira e trocou a academia pela redação. Acreditava que, dessa maneira, poderia fazer algo  para manter a população verdadeiramente informada sobre o que estava acontecendo no país.

Como repórter, editor e redator-chefe, passou, entre outras empresas de comunicação, pelas editoras Abril, Três, nas revistas Exame e IstoÉ, e foi diretor geral da Gazeta Mercantil, em Brasília. Na Secretaria de Comunicação, a convite do ministro Franklin Martins, vem contribuindo para o aperfeiçoamento de um canal de comunicação entre o Governo e a  população brasileira.
Entre suas metas está a divulgação de uma imagem positiva do país no exterior, do ponto de vista institucional, por meio da imprensa internacional e de formadores de opinião, e atrair o interesse de investidores estrangeiros de médio e grande portes. 

A contratação de serviços diretamente com as agências de comunicação foi muito bem recebida pelo mercado. Quais os resultados práticos dessa medida e de outras postas em prática?
Na gestão do ministro Franklin Martins, a Secom decidiu não contestar a determinação do Acordo 2062, de dezembro de 2006, do Tribunal de Contas da União, que vedava a subcontratação, por meio de agências de publicidade que atendem os diversos órgãos do Governo Federal, de serviços como assessorias de imprensa, criação e desenvolvimento de sites, realização de pesquisas de opinião ou organização de eventos.

Quem atribui essas contratações para as agências de publicidade deixa de estabelecer uma estratégia para cada um desses canais de comunicação e, além disso, tem que pagar uma comissão para as agências. Na Comunicação Pública, é fundamental tratar internet, eventos ou relacionamento com a imprensa como importantes formas de comunicação e não meros complementos da publicidade. Já publicamos editais para contratação de uma assessoria de imprensa para promover o Brasil no exterior e contribuir na atração de investimentos, bem como uma outra para realização de pesquisas de opinião, quantitativas e qualitativas. Vamos publicar um edital para contratar a empresa de comunicação digital que reformulará os sites da Presidência da República e criará um novo portal voltado para o público do exterior.

Uma das licitações realizadas, no valor de R$ 15 milhões, é destinada à promoção da imagem do Brasil no exterior. Qual a abrangência desse projeto?
O objetivo é contratar uma empresa no Brasil que tenha parceria ou seja sucursal de uma empresa de assessoria de imprensa e relações públicas, que atue nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Pretendemos realizar um trabalho a longo prazo para promover a imagem institucional do Brasil e mostrar as oportunidades que o país oferece para investidores estrangeiros.
Não queremos promover o Governo brasileiro, mas sim as vantagens comparativas que o Brasil oferece; queremos mostrar o que as empresas e a sociedade civil estão fazendo. Não será uma contratação apenas para atuar defensivamente, mas que permita uma intervenção proativa junto à imprensa internacional e ao público que forma opinião e que fala para a imprensa estrangeira sobre o Brasil. Queremos fornecer informação de qualidade, por intermédio de uma empresa de assessoria de imprensa com forte presença internacional. No Brasil, a empresa contratada vai ter que manter uma equipe fixa, altamente especializada, com jornalistas fluentes em inglês para produzir conteúdo que será distribuído no exterior.

Qual é o peso da internet na estratégia de comunicação da Secom?
Estamos dando crescente importância à internet e recomendamos aos ministérios, autarquias e estatais que elaborem estratégia e plano de ação especialmente para esta mídia, dado o crescimento que tem no Brasil e no exterior - inclusive porque já existem 59 milhões de internautas no país. Não dá para pensar em Comunicação Pública de qualidade sem o uso intensivo e qualitativo da internet.
 
A Secom também contratará agências para desenvolver sites sobre o Brasil, com verba prevista entre R$ 10 milhões e R$ 11 milhões. O que será destacado?
Reformularemos os sites da Presidência: o endereço Brasil.gov.br, e criaremos um novo portal voltado para públicos do exterior interessados em conhecer o Brasil, trabalhar no país ou investir por aqui. Terá conteúdo próprio de alta qualidade e também direcionará os visitantes para os sites de órgãos do Governo Federal com conteúdo para o exterior, em inglês ou outras línguas. O novo portal começará em português e inglês, e depois será disponibilizado em francês e espanhol. O conteúdo participativo também será muito importante.
 
Quantas agências atendem à demanda de comunicação do Governo?
Existem três agências de comunicação atendendo a Secom e 42 que atendem as contas das estatais, ministérios e autarquias. É o maior número de empresas atendendo o Governo Federal desde 1994. De março de 2007 para cá, foram realizadas 21 licitações, por ministérios ou estatais, sob supervisão da Secom, com uma verba total de R$ 702 milhões.

Como é distribuída a verba de comunicação e quais os critérios adotados para a programação de abrangência nacional (veículos de circulação nacional e regional)?
Adotamos o critério de mídia técnica. Assim, procuramos distribuir a verba para emissoras de televisão de abrangência nacional proporcionalmente ao share de audiência (Ibope) de cada uma. Temos incentivado ministérios e estatais a seguir o caminho trilhado pela Secom, com forte regionalização das verbas publicitárias em jornais e rádios, evitando que ocorra a concentração em veículos da região Sudeste e no Distrito Federal.

Como se desenvolveu a sua trajetória profissional e o que determinou a mudança de perfil  do jornalista para o gestor da comunicação governamental?
Trabalhei 31 anos como jornalista ou executivo em empresas de comunicação. Na minha encarnação de jornalista, trabalhei na Gazeta Mercantil (onde comecei como repórter), fui editor de Exame e redator-chefe de IstoÉ. No final da década de 80, fui diretor da Gazeta Mercantil em Brasília, onde iniciei uma carreira como executivo que fechou seu ciclo quando fui diretor geral do jornal, em 2001. Depois passei a ser comentarista da TV Gazeta, em Brasília, e tive o enorme prazer de criar, em 2004, e dirigir a revista Desafios do Desenvolvimento, convidado por Glauco Arbix, então presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
Vim para a Secom a convite do ministro Franklin Martins, pois queria servir ao governo do Presidente Lula e contribuir com minha experiência profissional para aprimorar a política de comunicação pública dos órgãos que compõem o Sistema de Comunicação no Governo Federal.

Quais as dificuldades enfrentadas desde o início de sua gestão e os principais desafios que tem pela frente?
A maior dificuldade foi a readaptação ao ar seco de Brasília neste período de inverno e a maior gratificação foi trabalhar com a equipe da Secom, que é de altíssima qualidade e está muito motivada. O nosso principal desafio, até o final do mandato do Presidente Lula, em 2010, será a criação de uma carreira de gestor de Comunicação Pública, por meio do envio de um Projeto de Lei, antecedido de ampla discussão, para o Congresso Nacional.

Queremos criar uma carreira, com a contratação de profissionais via concurso público. Numa sociedade baseada no conhecimento, faz falta um profissional especializado em Comunicação Pública, que seja um guardião do conhecimento coletivo, da experiência acumulada, que  também funcione como gestor dos contratos licitados de assessoria de comunicação.

Atualmente, quando muda o governo ou o dirigente de uma empresa, ministério ou autarquia, saem os assessores de comunicação e levam consigo toda a memória dos erros e acertos. Queremos criar essa nova carreira. Se for aprovada pelo Congresso, teremos que fazer concursos e, depois, com apoio da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), realizaremos um curso de formação e aperfeiçoamento para todos os profissionais concursados.

Como avalia os resultados obtidos pela Secom e quais as principais diferenças em relação à política de comunicação praticada em governos anteriores?
Aprendemos com as experiências anteriores. No tocante à regionalização da comunicação da Secom, estamos dando continuidade a um processo que começou nas gestões anteriores, sob o comando dos ministros Luiz Gushiken e Luiz Dulci.

Quais os ganhos obtidos pela sociedade com a divulgação das atividades governamentais? Há quem considere essa divulgação propaganda. Como diferenciar uma e outra coisa?
Seja por meio das ações de assessoria de imprensa ou de publicidade, a principal responsabilidade da Comunicação Pública é prestar contas das ações governamentais, divulgar as políticas públicas e abrir canais interativos para que a sociedade, a cidadania, se manifeste.

Fale de sua história como jornalista durante o período da ditadura, e atuação dentro e fora das redações na luta pela redemocratização do país.
Durante a ditadura tive uma curta experiência como profissional de comunicação, pois comecei a trabalhar como jornalista em 1977 e, em 1978, entrei para a Gazeta Mercantil.
Enfim, já tinha passado o pior período da ditadura, marcado pela tortura e assassinato dos opositores, e logo depois terminou a censura prévia. Minha experiência de oposição à ditadura foi anterior à minha encarnação como jornalista, especialmente quando fui presidente do Centro Acadêmico do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e depois, quando militei na Ação Libertadora Nacional, liderada pelo heróico Carlos Marighela.

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