Há 200 anos o Brasil passava por uma grande transformação que mudaria a sua história. A chegada da família Real ao Rio de Janeiro trouxe mudança de hábitos e progresso. De um pequeno prelo incluído na bagagem de D. João VI sairia, em 10 de setembro de 1808, o primeiro jornal impresso no Brasil, A Gazeta do Rio de Janeiro. Era o jornal oficial da Corte. Antes dele, porém, em 1o de junho, o nosso primeiro jornal livre, o Correio Braziliense, impresso em Londres, circulava no Brasil clandestinamente. Outros periódicos surgiriam, principalmente depois da Independência. Em sua maioria eram jornais de causa, engajados, como o Observador Constitucional de Líbero Badaró, de 1829. Mas, por defender idéias liberais, o jornalista terminou assassinado. Alguns se notabilizaram na luta contra o absolutismo, depois a escravidão e pela instauração da República.
Segundo a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), o país conta, atualmente, com 24 jornais com mais de 100 anos em circulação. Esses verdadeiros 'heróis' sobreviveram a todo tipo de 'intempérie' - guerras, golpes de Estado, censura, crises econômicas - registraram fatos que transformaram para sempre a história do Brasil e do mundo, flagraram mudanças de comportamento, revoluções sociais e tecnológicas. À custa de grandes transformações e desafios, permanecem no dia-a-dia de suas cidades e ainda fazem parte do cenário da imprensa nacional. A profissionalização da administração, por exemplo, foi implantada em alguns dos maiores jornais do Brasil, e a parcialidade, do ponto de vista editorial, tomou outra forma.
Mais de 180 anos
Os dois jornais mais antigos do país pertencem hoje ao mesmo grupo, Diários Associados, fundado por Assis Chateaubriand. Quando nasceram, entretanto, o Diário de Pernambuco (PE - 1825) e o Jornal do Commercio (RJ - 1827) eram independentes. O de Pernambuco foi idealizado por Antonino José de Miranda Falcão e sua primeira edição só continha anúncios. Quando surgiu, o Diário de Pernambuco era impresso em rudimentar prelo de madeira. Em 1835, foi comprado por Manuel Figueiroa de Faria e, sob seu comando, viveu momentos de grandes transformações, chegando, em meados do século 19, a rivalizar com os periódicos da Corte por seu conteúdo editorial e acabamento gráfico. Nos anos de 1930, colaboraram no jornal, entre outros escritores, Tristão de Ataíde, Otavio Tarquino de Souza, José Lins do Rego, Menotti del Picchia, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. Atualmente o jornal tem circulação média de 25.318 exemplares/entre segunda e sábado (setembro), auditados pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC).
O Jornal do Commercio foi criado pelo francês Pierre Plancher com objetivo de fornecer notícias econômicas, mas transformou-se pouco depois em folha política e comercial, e acompanhou o que era o foco da economia ao longo do tempo. "Quando foi criado, em 1827, a economia brasileira era agrícola e comercial. Assim, o jornal dava cobertura, principalmente, a tudo o que envolvesse os negócios ligados ao campo e ao comércio, além, naturalmente, do movimento de navios nos portos, que era a ligação do Brasil com o mundo. Quando a economia se industrializou, ele acrescentou a indústria ao seu foco. Hoje, tem uma circulação de 35 mil exemplares/entre segunda e sábado (setembro), não auditados pelo IVC e, também, tem o mercado financeiro no conjunto de coberturas obrigatórias. O jornal mudou conforme o leitor mudou. Na medida em que o interesse do leitor se deslocou de uma área da economia para outra, o jornal fez o mesmo", conta a chefe de reportagem, Jô Galazi.
Os Diários Associados, grupo do qual fazem parte os dois mais antigos jornais, vivem o século 21 em nova fase, seguindo a tendência de toda a imprensa: a ampliação dos negócios para diversas mídias. O Grupo está presente em sete Estados com 50 veículos de comunicação, entre jornais - com destaque para o Correio Braziliense (45.326 exemplares de circulação, auditados pelo IVC), entre segunda e sábado (setembro) que circula em Brasília desde a fundação da nova capital do país, em 1960 -, emissoras de televisão, rádios, portais e sites na internet. O grupo tem uma agência de notícias, a D.A. Press, que está em fase inicial. Ela vai comercializar e aproveitar, de maneira sistemática, não apenas a produção atual dos veículos do grupo - imagens, textos e áudio -, como também o acervo histórico.
Sempre o mesmo, sempre mudando
O Estado de S. Paulo (SP - 1875) nasceu como defensor da República e hoje é o mais tradicional jornal de São Paulo. Pela redação passaram grandes jornalistas. Um jovem engenheiro militar, Euclides da Cunha, tornar-se-ía um deles, com o pseudônimo de Proudhon. Enviado para cobrir a campanha de Canudos, em 1896, os despachos que enviou eram, na verdade, grandes reportagens - embrião de um dos clássicos da literatura brasileira, "Os Sertões". Ao completar cem anos de existência, no dia 4 de janeiro de 1975, o jornal comemorou apenas 95 de vida, ignorando os cinco anos (1940-45) em que esteve submetido à censura da ditadura de Getúlio Vargas. Por coincidência ou não, em 1975, também no dia 4 de janeiro, foi suspensa a censura imposta pela ditadura militar de 1964 nas redações de O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde.
Mas o jornal é, também, um dos melhores exemplos de como um centenário mudou muito e, ao mesmo tempo, preservou a identidade. A atual campanha "Sempre o mesmo, sempre mudando" fala disso, ao remeter ao atual slogan "Estadão, o jornal que pensa ÃO", englobando jornal, celular, portal, webtv e podcast. O Grupo Estado é formado por emissora de rádio, jornais, portais de internet, agência de notícias, revistas, guias e listas. Para permanecer lucrativo, além de adotar a linguagem contemporânea da comunicação, passou por outras importantes mudanças. A família Mesquita, que deteve o comando exclusivo do jornal desde a sua fundação, hoje o divide com um conselho administrativo que gere o grupo, integrado por investidores.
Roberto Gazzi, editor executivo do Estadão, lembra que transformações acontecem de tempos em tempos, na forma, no desenho, no tipo de assunto. "O jornal vai ampliando a cobertura e, com as novas tecnologias, cria-se mais acesso. Alguns dos cadernos que existem hoje, por exemplo, foram sendo criados ao longo do tempo, como o de cultura, a parte de negócios separada de economia, o esporte, na década de 60, além das notícias mais leves", descreve.
Em busca de novas receitas
Antes do aparecimento do rádio, o jornal era a mídia de massa e os anunciantes dependiam dele. Mas, a partir dos anos 30, o cenário mudou. Com o surgimento de novas mídias, os periódicos perderam anunciantes. O desenvolvimento trouxe a profissionalização do mercado anunciante e o crescimento do bolo publicitário a partir dos anos 60, lembra o diretor de Marketing e Mercado Leitor do Grupo Estado, Antônio Hercules. "Como o volume de anúncios continuou crescendo, mantinha-se a viabilidade do jornal. A luta pela democracia e defesa de seus ideais políticos só foi possível porque o jornal era rentável. E como há uma grande pulverização dos anunciantes, não há dependência de apenas um".
Nos anos 90, a inovação com os fascículos tentou ampliar a tiragem e a lucratividade dos jornais. Em 1995, a tiragem do Estadão chegou a 1 milhão de exemplares. Mas Hercules lembra que era um crescimento artificial. "Os fascículos começaram a perder força, para o jornal ficou caro e para o leitor não tinha mais o mesmo impacto". Em 1998, caiu a tiragem novamente e o viés mudou. O objetivo era aumentar a circulação, mas era preciso se auto-financiar. Foi o que aconteceu no ano 2000, quando os fascículos voltaram, mas a idéia não era aumentar a circulação, e sim ganhar dinheiro. "E agora, os fascículos são cobrados à parte."
Outra fonte de rentabilidade foi o surgimento de cadernos especiais dentro do jornal, como o suplemento do São Paulo Fashion Week e o caderno Paladar, do Estadão. Um deles é feito duas vezes ao ano, com a cobertura do evento de moda que acontece em São Paulo; já o segundo é um caderno semanal que atraiu diversos leitores e anunciantes do mundo gastronômico. Atualmente, os classificados (imóveis e autos) rendem metade da receita do jornal. Dentre os anunciantes, os varejistas de grande e médio portes são os mais presentes e, recentemente, o setor de indústria e serviços estão mais assíduos. A publicidade legal, que em certa época foi de extrema importância para a economia do jornal, perdeu espaço para áreas que crescem mais. Atualmente, de acordo com o IVC, a circulação do jornal é de 225.503 exemplares/entre segunda e sábado (setembro).
Inovações e provocações
O Jornal do Brasil (RJ - 1891), com 91 mil exemplares de circulação, média de setembro, (não auditados), hoje faz parte da Companhia Brasileira de Multimídia, que também engloba Gazeta Mercantil, Editora Peixes, JBTV, Casa Brasil, Brasil Digital e Brasilog. Segundo o diretor-geral do JB, Marcos Troyjo, o que faz do jornal um veículo moderno são os profissionais multimídia. Atualmente, a marca JB está ampliando sua gama de atividades não só como um difusor de notícias - no caso de projetos digitais e mídia colaborativa - mas também no universo de eventos. Os mais recentes trabalhos da marca com esse enfoque foram a Conferência de Investimentos na América Latina (Boston, EUA) e a exposição com arquivo de fotos e textos sobre a Bossa Nova (ONU - NY).
À parte a fase multimídia do JB, o centenário é referência por toda sua tradição em colunismo político e amigo da intelectualidade. Histórias curiosas foram escritas em suas páginas. Um dos nomes mais lembrados ao se falar em JB é Alberto Dines - o jornalista que assumiu a redação do jornal com apenas 30 anos de idade, logo após uma enorme transformação, em 1956, com a passagem de Odylo Costa Filho e projeto gráfico feito pelo artista Amílcar de Castro. Um divisor de águas na história do jornal, já que passou de periódico conservador, de apresentação gráfica pesada, a um dos mais respeitados e modernos veículos do país. A primeira grande novidade trazida por Dines foi a antecipação da produção do jornal. Ele pôs a redação para funcionar mais cedo e começou a produzir o JB, não apenas com o inesperado, como era comum na época; implantou o costume de fazer reuniões de pauta. Dois momentos se tornaram célebres pela postura assumida no jornal. O primeiro aconteceu logo após o anúncio do Ato Institucional no 5, imposto pela ditadura militar em 1968. Com a chegada da censura na redação do JB, Dines decidiu "avisar" o leitor e publicou uma edição metafórica, cheia de cortes dos censores. O segundo momento foi quando a censura não permitiu que o jornal publicasse a manchete noticiando o golpe militar e a morte de Salvador Allende, no Chile. A capa saiu sem manchetes, apenas com a reportagem escrita em três colunas e letras grandes.
No Jornal do Brasil de hoje, o departamento comercial está estruturado de maneira bem diferente da tradicional. Com a ampliação de serviços oferecidos, a área comercial é dividida em quatro departamentos: publicidade, projetos especiais, eventos e projetos digitais. O diretor-geral do JB explica que qualquer projeto que entre na casa, necessariamente, será tangenciado pelos quatro departamentos. "Transformamos a empresa em pequenas unidades de negócios com a marca forte. Onde temos aplicado, tem ido bem". No entanto, a principal fonte de renda ainda é a publicidade comercial, principalmente os segmentos de varejo e telecomunicações.
Imprensa regional
Enquanto os grandes veículos driblam o tempo com a diversificação de mídia e cadernos especiais, a imprensa regional resiste às diversas transformações da sociedade e da economia de forma diferente. A realidade de cada lugar proporcionou diversas estratégias de permanência no mercado.
Na cidade de Oliveira, região oeste de Minas Gerais, surgiu um jornal chamado Gazeta de Oliveira, em 1887. Este periódico passou por diversas mudanças e proprietários. No início, o jornal circulava entre Minas Gerais e a Corte, no Rio de Janeiro. Com isso, o nome foi trocado e até hoje é Gazeta de Minas. Naquela época, o noticiário ampliava acontecimentos nacionais e internacionais, pois existiam poucos jornais com essa abordagem. A partir dos anos 60, a Gazeta desistiu de concorrer com os grandes diários, voltou para o noticiário local e assim permanece.
Publicado todos os domingos, a Gazeta de Minas tem uma tiragem de 1.600 exemplares (não auditados). É um jornal para o público local e "tem o tamanho do contexto histórico que vive", conta o editor João Bosco Ribeiro. Hoje o jornal tem doze páginas e o que muitos gostariam: a fidelidade do leitor. 70% de sua receita provém de assinaturas. "Não temos grandes contas, não temos publicidade do governo", esclarece. Em uma cidade de 40 mil habitantes, a necessidade de saber sobre os acontecimentos locais mantém a empresa.
O rumo tomado pela Tribuna do Norte (1.600 exemplares, em média, de circulação não auditados), de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, foi diferente. Publicado pela primeira vez em 1882, por João Romero, o jornal tinha a defesa das idéias abolicionistas e do partido liberal como motes de seu editorial. Mas com os ideais dos partidos consolidados, o jornal chegou ao final dos anos 70 "capengando", como nos conta o editor e presidente da Fundação João Romero, Irani Lima: "não havia equipamentos, os funcionários eram antigos e estavam se aposentando ou morrendo". Foi então que a prefeitura interferiu e criou uma Fundação com o nome do fundador do jornal".
A prefeitura sustenta a fundação da qual o jornal faz parte, e transformou a Tribuna em veículo oficial do município. Desde 1980, o jornal se mantém com repasses de verba da prefeitura; a renda vinda dos anúncios não é alta, os vendedores são concursados e não recebem comissão de vendas. Lima conta que atualmente a Tribuna não aborda temas políticos, porque uma lei obriga o jornal a publicar duas vezes por semana as ações dos vereadores - conteúdo que é produzido pelo órgão e não pela redação do jornal.
O Correio do Povo (RS - 1895) renovou-se com atualizações tecnológicas constantes. O diretor de redação, Telmo Flor, conta que o jornal já nasceu com postura moderna. Enquanto os concorrentes eram partidários, o Correio trouxe uma visão apartidária para a imprensa riograndense. Em decorrência de uma crise financeira, nos anos 80, o jornal fechou as portas durante dois anos, reabrindo em 1986 sob a direção da família Renato Ribeiro. A mudança trouxe transformações para o Correio do Povo, que passou para o formato de tablóide e noticiário sintético. Em 2007, o jornal foi vendido para a Rede Record (TV, rádio, entre outras atividades fazem parte do grupo) com circulação de 157.639 exemplares/entre segunda e sábado, segundo o IVC. Com a entrada do Grupo, todos os recursos arrecadados pelo jornal com publicidade e assinatura estão sendo reinvestidos. O mais recente investimento, conta Telmo Flor, é um novo software de edição.
Sobrevivente com altos e baixos
Longe da Corte, na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte, nascia em 1872, o jornal O Mossoroense - outro bom exemplo de periódico que sobrevive ao tempo, apesar de ter parado as máquinas mais de uma vez. Com posição política bem marcada, o jornal nasceu como órgão do partido liberal para combater o partido conservador e defender idéias da maçonaria. Com a briga entre o jornal e um líder religioso, que também era o líder do partido, houve uma ruptura. A partir de então, adotou a inscrição: "Semanário político comercial noticioso e anti-jesuítico", deixando clara a sua posição. Em 1876, O Mossoroense fechou as portas e permaneceu assim por 25 anos, até que o filho do fundador, João da Escócia, reabriu com objetivos diferentes daqueles de seu pai. Desde então, passou a ser um jornal voltado para a divulgação de arte e literatura.
Entretanto, um acontecimento de extrema importância fez com que Escócia retomasse a vocação de jornal engajado e fizesse a cobertura da passagem de Lampião e seu bando pela cidade. Foi na semana do dia 13 de junho de 1927. Era a primeira vez que Lampião ousava assaltar uma cidade das dimensões de Mossoró. O noticiário se concentrou em mostrar a movimentação das autoridades e da população para organizar a resistência ao grupo do temido cangaceiro. A edição de 19 de junho de 1927 noticiou, com letras garrafais, que a cidade havia resistido à invasão e capturado, entre outros cangaceiros, o Jararaca, famoso por sua ferocidade. João da Escócia conseguiu uma entrevista com o facínora e publicou o relatado de suas aventuras.
Com a chegada de Vargas ao poder, O Mossoroense fechou. Reabriu em 1933, novamente engajado políticamente. Mesmo com a mudança de proprietários, em meados dos anos 70, o noticiário continuou defendendo determinadas correntes políticas, o que só mudou com o surgimento de outras mídias. "A característica sempre foi o jornalismo extremamente engajado. Na década de 90, com a chegada de novas tecnologias, ele deixou um pouco a política para ser mais noticioso. Atualmente é possível noticiar questões negativas do grupo político do jornal", revela Cid Augusto, diretor de redação. Para ele, mais importante do que qualquer linha editorial é a defesa das questões locais que O Mossoroense publica, apegado às tradições e características da cidade.
A publicidade convencional é a maior fonte de renda. Augusto conta que, há dez anos, todos dependiam da verba pública. Mas atualmente, com circulação de 3 mil exemplares diários (não auditados), os comerciantes da cidade notaram a importância do meio e O Mossoroense mantém sua independência.