Também chamados, mais apropriadamente, de jornais locais, os periódicos editados por pequenas empresas jornalísticas do interior do Brasil tornaram-se pauta de alguns dos grandes diários. Isso porque o governo federal promete investir parte de sua vultosa verba de publicidade nesse segmento da mídia. Os jornais locais, então, depois de terem a sua importância notada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, passaram a ser considerados cúmplices do governo federal por outros jornais, em especial a Folha de S.Paulo e O Globo.
É certo que a mídia sempre foi utilizada como instrumento de dominação de classe e ideológico, entretanto, imaginar um conluio entre o governo federal e os milhares de jornais locais, como se fosse uma ação ardilosamente articulada, é uma tese insana, própria de quem vê fantasmas ao meio-dia.
Tidos antes como uma reserva de mercado de prefeitos e deputados, os jornais de circulação regional, há muito, são reconhecidos veículos adequados à inúmeras ações publicitárias, incluindo-se as dos governos.
Em São Paulo, o governo estadual tem se utilizado dos jornais locais com uma intensidade que há muito não ocorria - mas muito inferior àquela aplicada pelo governador Franco Montoro, um democrata também na distribuição da verba publicitária. Dos atuais governos estaduais, o de Santa Catarina, comandado por Luiz Henrique, é um dos que mais investe nos jornais do interior. É um caso exemplar.
O jornal do interior não deve ser encarado apenas como um meio de comunicação na estratégia de mídia dos governos; ele vai muito além disso. Entre todas as virtudes dos jornais locais, algumas delas são relevantes: a comunidade se enxerga no jornal local; é por meio dele que a sociedade local conversa consigo mesma, formula propostas, troca experiências e se julga; o jornal local contribui para a criação da identidade coletiva; é a fonte de leitura mais acessível para milhares de brasileiros e, na maioria das comunidades do interior do país, é o único meio de registro histórico. Portanto, investir nos jornais locais é investir no desenvolvimento social e cultural das comunidades.
A sociedade e a própria mídia cobram transparência dos atos daqueles que têm função pública. A publicidade governamental cumpre esta finalidade, inserida no conceito democrático de que os governantes têm o direito de comunicar, o que faz na linguagem que expressa sua identidade como governo.
O governo Lula tem feito esforços para democratizar a distribuição de sua monumental verba publicitária. Diante do investimento dirigido a todos os segmentos da mídia, está muito distante de algo significativo a parcela destinada aos jornais locais. Os valores aplicados até o momento, e os prometidos, são ínfimos em relação aos investidos em outros segmentos; entretanto, são superiores aos praticados nos últimos 20 anos.
Carlos A. B. Balladas, presidente da Associação dos Jornais do Interior do Estado de São Paulo