Portal Negócios da Comunicação

  • Twitter
  • Facebook
  • Orkut
Adicione esta p?gina aos seus favoritos
OK
Agências

Imprensa

Quem tem medo da internet


Os impressos repensam o modelo de negócios para enfrentar a velocidade com que a web avança no mercado


Marleine Cohen

A imprensa escrita tal como a conhecemos hoje - periódica e impressa - teve seu fim decretado inúmeras vezes ao longo da sua história, sem por isso deixar de estar nas bancas, no dia seguinte.  Agora, novamente os números surgem implacáveis: nos Estados Unidos, 93 jornais acabam de fechar, falir ou migrar para a internet. Os gigantes da imprensa norte-americana, The New York Times, Los Angeles Times e The Washington Post amargaram quedas importantes de circulação. "Tudo o que acontece nos Estados Unidos tem uma superdimensão. Talvez, se o mesmo acontecesse no Irã, ninguém notaria.

Mas quando três ou quatro operações caem lá, o mundo todo entra em pânico sem considerar que a circulação de jornais pagos no planeta subiu 1,3%, no ano passado. Só na América Latina, cresceu 16,4% nos últimos cinco anos", avalia Marcelo Rech, diretor-geral de Produto do Grupo RBS. "Para dar uma medida de como acreditamos na vida longa dos jornais, inauguramos em junho um novo parque gráfico com investimento na ordem de R$ 70 milhões", conta.

O diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, concorda com Rech e ainda lembra que, no caso da China e da Índia, o potencial de crescimento é imenso. "O Brasil vive uma realidade muito diferente da dos Estados Unidos. Lá, a indústria jornalística atingiu seu topo, com grandes índices de leitura. Com a chegada da internet, muita gente deixou de ler jornal impresso e passou para a leitura digital. No Brasil,? país com uma imensa parcela da população ainda não alfabetizada ou sem o hábito da leitura, há espaço enorme para a conquista de leitores para o meio impresso. É o mesmo fenômeno que acontece na Índia e na China, por exemplo, países onde vem aumentando a circulação de jornais. Antes da crise mundial iniciada no final do ano passado, o forte crescimento econômico do Brasil, assim como o de países como a Índia e China, permitiu o aumento da circulação dos jornais, sobretudo os populares", defende.

A análise do Instituto Verificador de Circulação (IVC) aponta na mesma direção: em 2007, foram impressos 8,083 bilhões de exemplares e, no ano seguinte, 8,49 bilhões - o que, segundo o instituto, representa para o Brasil um aumento de 5% da tiragem geral de jornais. "O Zero Hora, por exemplo, aumentou a circulação em  mais de 3% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2008", acrescenta Rech.
"Todos os grandes varejistas, imobiliárias, concessionárias e fabricantes de carros movimentam bilhões, a cada ano, com seus anúncios na mídia impressa", garante Flávio Nara, diretor de mídia da agência Z+.  "E isso faz com que o jornal não morra. Muito pelo contrário", reforça.

Somar ou dividir?

A discussão do momento coloca frente a frente mídia impressa e internet. Toneladas de pesquisas são encomendadas para apontar se, afinal, a web está mesmo tirando leitores do papel. "Desde que surgiram, na década de 90, os jornais online complementam a versão impressa. São uma maneira diferente de divulgar o conteúdo da edição em papel, pois, por enquanto, ainda não se viabilizaram sozinhos", sustenta Matías Molina, analista de mídia e autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo (Ed. Globo). Rentável ou não, porém, explica ele, alimentar uma versão eletrônica é hoje imperativo para qualquer jornal que se preze: "Não é imaginável um jornal importante sem sua versão eletrônica. É uma imposição mercadológica", considera. Uma necessidade crescente no mundo e igualmente no Brasil, que conta com atuais 64,5 milhões de internautas - 39 milhões, dois anos atrás, e pouco mais de 9 milhões em 2005, nos nove principais mercados nacionais, de acordo com dados da ONU.

Na corrida pela preferência do público, convergência é a palavra mágica para as duas mídias - quase sinônimo de conciliação.  É fato incontestável que o impresso movimenta mais recursos que a internet. Mas, na divisão do bolo publicitário, as cifras são astronômicas de parte a parte. Os dados divulgados pelo Ibope Monitor dão conta de que, no ranking das 50 agências com maior faturamento no país durante o primeiro trimestre de 2009, duas delas são especializadas em internet: a AgênciaClick, com R$ 44,3 milhões, e a ID\TBWA, que atingiu os R$ 34,6 milhões. O fato de a DPZ obter 12% do seu faturamento das campanhas desenvolvidas para a web é mais um indício de que o mundo virtual está conquistando espaço na agenda dos anunciantes.

"Na Inglaterra, a fatia que cabe à internet chega a 20%. Aqui, não atingiu 6%", observa o diretor-geral de Produto do Grupo RBS. Ainda é pouco, mas avança a cada ano. A receita obtida pela publicidade na web passou de menos de 1% em 2000 para 1,66% em 2005 e 3,5%, ano passado - um crescimento consistente e ininterrupto.

Modelos de negócios

O grande desafio das empresas jornalísticas está em tornar o noticiário online autossustentável. Eugênio Bucci, professor-doutor em Comunicação na Universidade de São Paulo (USP), afirma que é fundamental saber se a redação e o conteúdo vão encontrar o lugar que a sociedade valoriza e quer financiar. "O jornal deve se dedicar ao que é essencial para o jornal, pois tem a capacidade de apresentar o que é relevante e não o mero registro do factual.

A internet publica se vai chover, se tem buraco na rua, a cotação da bolsa... Diferentemente, o impresso precisa oferecer o entendimento e o aprofundamento, a investigação e a reflexão, unir os eventos aparentemente desconectados, ir além do óbvio, do factual e dedicar-se ao que é realmente relevante", diferencia. Mas ressalva que isso só pode ser feito por redações de fato independentes - financiadas pela sociedade, pela publicidade e outros recursos.

"A preocupação é garantir um modelo de negócio em que o cidadão pague pela informação. Esse vínculo político e econômico não deveria desaparecer", sustenta Bucci. "Ao comprar um jornal, o cidadão dá crédito, demonstra confiança e o sustenta. Só a publicidade não consegue. Os jornais impressos na internet e os sites jornalísticos precisam desenvolver mecanismos (programas de financiamento direto, assinaturas, venda de matérias isoladas) de maneira que o pagamento que o público faz permaneça - que ele se sinta patrocinador, meio dono, responsável pelas instituições que o informam."

O jornalista Vicente Vilardaga, consultor em novas mídias e ex-diretor de conteúdo digital da Gazeta Mercantil, reforça que a cobrança do conteúdo, tudo indica, deverá ser a saída estratégica para o negócio. "A gratuidade da informação é o mais flagrante contra-senso atual do mercado. A informação é a principal riqueza da nova economia, seu bem mais precioso, e não faz sentido que seja entregue de graça. Se estamos de acordo que entramos na sociedade da informação, então nossa maior fonte de riqueza está sendo desperdiçada. O mercado de conteúdo floresce timidamente, mas seu pleno desenvolvimento vai depender da aceleração do processo chamado de monetização", analisa.

Segundo ele, cobrar pelo conteúdo jornalístico já é um projeto geral dos veículos de comunicação. "O futuro do mercado será de venda de unidades de conteúdo e micronegócios em escala estratosférica. Um arquivo digital com uma notícia de um grande jornal será comercializado como um microativo de preço mínimo e alta liquidez, como arquivos de música, podcasts e fotos. Deverá existir, de fato, um mercado de informações com os arquivos digitais tendo algum valor monetário, um preço ótimo, de centavos ou décimos de centavos", prevê.

O empresário Rupert Murdoch acerta o alvo quando anuncia que todos os jornais do seu grupo, o News Corp, vão passar a cobrar pelo acesso ao conteúdo na internet dentro de um ano. Sua iniciativa vai ajudar a redefinir o modelo de negócios na rede mundial e também esquentar o debate sobre o valor do conteúdo de credibilidade. Todos os jornais do grupo de Murdoch vão cobrar por notícia, por unidade de informação jornalística. 
Experimentalmente, o Estadão.com dirige seus anúncios para o factual e cobra dos usuários pelo acesso à consolidação analítica da informação: "Este é um nicho que pode ser cobrado e tem permitido um crescimento em termos de produtos", antecipa Marco Chiaretti, editor-chefe de Conteúdo Digital do Grupo Estado. O Portal, carro-chefe do mercado digital do grupo, recebe 1 milhão e 700 mil visitas diárias únicas. (leia a matéria Negócios.com na página 32)

Guálter George, editor-executivo de Conjuntura do jornal O Povo, de Fortaleza, afirma que, nas discussões internas, o consenso é de que o caso brasileiro, quando -comparado aos Estados Unidos e à Europa, apresenta algumas vantagens. "Acredita-se, para citar uma delas, que nos será oferecido um tempo maior para transição entre o modelo de mídia impressa hoje vigente e o que se anuncia para o futuro, certamente marcado por uma migração para plataformas mais condizentes com o mundo tecnológico moderno. Em termos mais claros, para o mundo virtual da internet, com todas as dúvidas que ela ainda apresente quando é discutida dentro de uma perspectiva de viabilização comercial, como negócio", afirma.

Mudanças urgentes

"Não que o jornal vá desaparecer, só que o formato que conhecemos está condenado há vários anos e o mundo sabe disso. A Piauí, que só tem texto e papel, é a prova de que a leitura, a experiência do homem em se debruçar sobre o papel devem seguir. Mas o calhamaço que chega aos domingos, com toneladas de classificados, precisa ser eliminado - nem mesmo do ponto de vista ambiental isso é aceitável. Lemos, pela separação do que não interessa. E o jornal de domingo representa o anacronismo desse formato", observa Eugênio Bucci. "Algumas leituras ainda ficarão confortáveis no papel. Haverá uma sobrevida, mas não os dois quilos de jornal de domingo", reforça.

"O problema, para nós, não está apenas no processo evidente de transformação pelo qual passa a construção/circulação da notícia, mas na velocidade em que ela se dá. Tudo o que vier como número será apenas efeito, não causa. Vive-se, no campo da comunicação de massa, uma 'revolução' que torna muito difícil a tarefa de dimensionar consequências (na perspectiva de futuro) de maneira segura. Padrões históricos estão caindo; até a forma como o público lida com o texto jornalístico está em fase de realinhamento, dentro de um deslocamento cultural que tem levado a uma mudança nas próprias plataformas de leitura. Hoje, até o celular (ou ele, em especial) é veículo por onde passa o noticiário", reflete George, do O Povo.

Marcelo Rech, do Grupo RBS, garante que os impressos que se limitarem a reproduzir o que aconteceu no dia anterior correm o risco de perder na concorrência com a internet. "O papel do jornalista ficou ampliado. Não é só obter a informação; é selecionar, descartar, processar de maneira inteligente. Os repórteres e as redações precisarão estar muito mais qualificados para esse novo papel. Somos, hoje, grandes selecionadores baseados em critérios de qualidade. Entendendo essa nova configuração do jornal, em que ele passa a agendar a notícia, indo atrás de tendências, antecipando e propondo análises e reflexões profundas, pensar sobre um novo modelo de negócios fica mais claro", diz. Rech conta que a discussão sobre como aumentar a receita na web é inevitável. "O conteúdo premium deve ser comercializado, não a commodity. E o Wallstreet.com faz isso brilhantemente, com as informações profundas e diferenciadas. Diferentemente da indústria de celular, perdemos a oportunidade lá no início de cobrar como eles fazem com os ringtones, horóscopo e pequenos boletins. Nós, ao contrário, fomos para um modelo tradicional de publicidade e não deu certo. Agora, o momento é de construir um modelo."

A busca de um modelo, entretanto, também se refere ao universo da web. Alberto Dines acrescenta que o noticiário online se ressente de um problema crônico: o modelo de gestão em uso. "A internet no Brasil é muito fraca. Serve para dar notícias mais quentes, imediatas, mas, ainda assim, fica horas a fio com as mesmas informações. O motivo é simples: ela segue os jornais, mas não os antecipa. Por isso, ainda não é ameaça. Tem os mesmos defeitos da área escrita, sem ter suas qualidades. É confusa, fragmentada, mal escrita, cansativa - e precisa de bons jornalistas eletrônicos, não de um serviço de copia-cola."

Assim exposto, mídia impressa e jornalismo na web mais despontam como duas linhas que correm em paralelo, sem se chocarem. Para muito além do confronto recíproco, cabe a cada qual buscar hoje a excelência na sua própria especificidade, como um nicho preferencial, e atender seu público amanhã, oferecendo um produto mais bem-acabado e único. Não sem razão, Chiaretti sustenta que "a classe média lê jornal como diferencial de sua classe", avaliação que encontra amparo na pesquisa da Research International à Folha, indicando que 76% dos leitores das classes A e B preferem ler jornal impresso, no Brasil, sendo que 12% são assinantes de algum veículo de informação.

Esta mesma elite também se informa pela web, a ponto de 37% acessarem habitualmente algum jornal online - fator que está levando o portal do Estadão a criar meia dúzia de portais para nichos específicos de leitores e cobrar pelo acesso à consolidação analítica na web, uma experiência "que funciona e tem se mostrado rentável". Segmentação e diferenciação talvez sejam a solução para o impasse.


Questão de administração

Para muito além dos números, porém, as opiniões acerca da crise do setor permanecem divididas. "Os jornais norte-americanos não fecharam por conta da concorrência com a web. Não é assim que acontece. Não foi assim com a chegada do rádio, nem da TV, nem do cinema jornalístico. Jornais que fecham estão ruins independentemente da internet. Não existe uma causa-efeito tão imediata e apocalíptica", analisa Alberto Dines, especialista em jornalismo, idealizador e diretor do Observatório da Imprensa.

"Em longo prazo, não tenho certeza de que a próxima geração vá ler jornal impresso", opina Marco Chiaretti, editor-chefe de Conteúdo Digital do Grupo Estado, lembrando, contudo, ser difícil atrelar o mau desempenho da indústria jornalística norte-americana ao avanço da web. "Penso mais num erro administrativo", concorda.

Para o jornalista Vicente Vilardaga, o contexto mundial deve ser considerado na análise. "A situação econômica hoje parece confusa porque alguns canais de geração de receita se interromperam e outros não floresceram. A crise da indústria automobilística expõe o esgotamento do capitalismo industrial, que atingiu seu ápice nas linhas de montagem da Ford e da GM. E a engrenagem financeira e os negócios com derivativos, que expandiram a nuvem de riqueza na segunda metade do século 20, mostraram os seus limites", expõe. "A crise financeira global evidencia um fracasso sistêmico, um esforço insano de se extrair margens excessivas de lucros de negócios que se esgotaram. Uma montanha de recursos evaporou com a crise financeira mundial, mas deveríamos apostar que esse dinheiro pode voltar ao mercado literalmente comprando informações", considera.

Nesse sentido, afirma Vilardaga, a rede mundial transformou-se em um fabuloso duto de troca de conteúdo digital, mas o dinheiro aparece pouco e a imensa maioria da informação digital não é paga. "Dá para ver os primeiros movimentos de venda de conteúdo nos terminais móveis e em grandes lojas virtuais. A Apple vende música a US$ 0,99 no ITunes e a UOL Megastore vende a faixa a R$ 1,89 ou R$ 1,99. Também se compra notícia pelo celular, via SMS - R$ 0,10 por mensagem curta no G1", exemplifica. O mercado de conteúdo jornalístico começa a se insinuar, mas não é nada perto do que será. O volume de trocas informais e de compartilhamento gratuito de unidades de notícias é maior ainda do que o de arquivos de música. Muito circula e pouco se paga."Temos, afinal, um ambiente de não-negócios que precisa começar a ser encarado como um mercado potencial, no qual unidades de conteúdo monetizadas e comercializadas por poucos centavos geram riqueza", conclui.


Os números no mundo

No resgate do jornalismo impresso não faltam voluntários - argumentos, e mais números. Para o presidente da Associação Mundial de Jornais (Wan) - entidade que representa o mercado global de jornais -, Gavin O´Reilly, prever a morte dos jornais já virou esporte: "A circulação mundial cresceu 1,3%, em 2008; acrescidos os diários gratuitos, ela chega a 1,6%. Na América Latina, terceiro maior mercado emergente depois da África (6,9%) e da Ásia (2,9%), a alta em relação ao ano passado é de 1,8%", informa Gavin O'Reilly.

"O papel continuará sendo o principal gerador de renda para os jornais, e isso por muito tempo, contrariando o que afirmam os pessimistas", endossa o porta-voz da associação mundial de jornais, Larry Kilman, explicando que a queda de circulação registrada na América do Norte (3,7%), na Oceania (2,5%) e na Europa (1,8%) se deve ao fato de as empresas de jornais terem abraçado a tecnologia digital, nos mercados maduros, para aumentar o seu alcance, chegando a atingir mais de 70% da população adulta na Europa, 91% no Japão e 62% na América do Norte.

De fato, são quase 540 milhões de exemplares comercializados por dia, em todo o mundo, segundo dados da Wan. Ao todo, 1,9 bilhão de pessoas folheiam um diário pago no seu dia a dia, sendo que os jornais atraem 41% mais adultos que a web. "Tem mais adultos lendo jornal diariamente do que gente comendo Big Mac todos os anos", compara o presidente da WAN.

Capa da Revista

Sumário

Edições Anteriores

Assine

Edição 63 - Abril / 2013

Folheie a revista


Folhear

Comunidade

Banner 300x115
Untitled Document