Em 1967, ao descerrar a placa que inaugurava a Fundação Padre Anchieta, o então Governador Abreu Sodré mostrava que São Paulo pensava em políticas públicas inovadoras. Não há nada de errado com a lógica comercial da televisão, apenas que ela não é a única, nem a pior, nem a melhor. Essa lógica pressupõe que, do outro lado do aparelho, está um consumidor. Enquanto a concorrência era pequena, a TV comercial se dava ao luxo de transmitir teleteatros, dramaturgia de primeira linha e fazer uma TV parecida com a que se via, por exemplo, no Reino Unido de então. A coisa complicou com o acirramento da concorrência e a consequente briga pela audiência. Aí valia tudo, afinal de contas, o consumidor estava lá apenas para servir de massa de formação de audiência. A TV pública pensava diferente e, mais uma vez, nem melhor nem pior. Ela acreditava que do outro lado da tela estava um cidadão e procurava dar a ele uma formação mais crítica a respeito do mundo em que vivia, para que ele pudesse exercer melhor a sua cidadania. A TV pública fazia programas dirigidos, para públicos específicos, um a um, de forma quase artesanal. Ela também acreditava que devia ficar longe do poder e longe do mercado, contando com a eterna cumplicidade dos governantes de plantão. Eles deviam entender que pagavam a conta, mas não podiam mandar no conteúdo Em pouco tempo, a TV - seja pública, seja privada - perdeu como mídia duas coisas importantíssimas: a possibilidade de definir a agenda do telespectador e uma boa parte da sua audiência. Hoje, o telespectador quer definir o que, quando, onde e por onde quer ter contato com a televisão. Quer apenas o que lhe convém, seja isso o que for. Ele passa a ser o programador e senhor absoluto do seu tempo, cidadão e consumidor. As emissoras de televisão vão tentando, tanto as comerciais quanto as públicas, se equilibrar como aqueles malabaristas chineses que não podem deixar o prato cair. Tentam fingir que é assim que funciona o jogo. A TV comercial continua fundamentada na dependência da sua audiência, enquanto isso lhe permite faturar e ter lucro, e a pública deixou de ser vista como política pública faz tempo. Nesse circo em que os papéis ficaram invertidos e as ideologias não funcionam, nem como pano de fundo, perdem todos. Perde o governo, que retrocede décadas e abre mão de prestar um bom serviço público que não se vê, mas se traduz em pessoas melhores. Perde o consumidor que, de tanto engolir lixo, já não lembra mais o sabor das coisas boas. Perde o cidadão que não quer pagar para melhorar a sua formação crítica, seja isso o que for. Acabo de ler que a ONU fez uma pesquisa com 500 mil brasileiros e perguntou o que eles acham que ajudaria a melhorar as suas vidas. Para meu espanto, aparece claro e contundente: mudar os valores. Malabaristas chineses, se me permitem, aí vai um conselho: mudem os valores, deixem o prato cair e inventem outro número. Esse não atrai mais e não melhora a vida de ninguém.