![]() estilo característico de Mauricio de Sousa junto à expressividade dos mangás conquistam o público adolescente |
A tira do mercado que representa os quadrinhos há algum tempo atravessa uma fase de transformação e crescimento. Muita coisa mudou desde a geração de crianças e pré-adolescentes que devorava gibis do Pato Donald, do Mickey e da Turma da Mônica, nas décadas de 1970 e 1980. O universo das HQs mudou o traço literalmente para acompanhar os novos tempos. Tempos de internet, videogames, mangás. Para sobreviver, novos caminhos foram traçados e, com todos os acertos de percurso, os profissionais do segmento revelam-se otimistas com as escolhas desenhadas. Os negócios estão mais aquecidos e os resultados melhoraram em comparação aos últimos anos.
Mas afinal, o que mudou nessa história? Os produtos? Os leitores? A distribuição? Talvez um pouco de cada, como afirma o jornalista e professor do curso de Letras da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Paulo Ramos, autor do Blog dos Quadrinhos (http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br): “Uma soma de fatores levaram a isso: ingresso nas livrarias, compras governamentais, editais de incentivo à produção, entrada de grandes editoras no setor”, diz o especialista em quadrinhos, que desde abril de 2006 já contabiliza quase cinco milhões de acessos em seu blog e complementa: “É algo ainda longe do ideal, mas melhor que os resultados das últimas décadas”.
![]() |
A volta da luluzinha |
Desde os tempos dos velhos gibis, vendidos em bancas de jornal em edições mais simples, a preços populares, muita coisa mudou. Atualmente, o mercado dos quadrinhos está mais sofisticado e seus produtos caminham cada vez mais para o formato editorial do livro. Com isso, muitas livrarias se interessam em comercializá-lo e seu público, entre novos adeptos, ganha também diversidade. “Os gibis estão em baixa e os livros de quadrinhos em altíssima. O público também mudou e, além de crianças e adolescentes do sexo masculino, as mulheres adultas são consumidoras cada vez mais importantes”, avalia Rogério de Campos, diretor editorial da Conrad, em São Paulo. Júlio Moreno, publisher da JBC (Japan Brazil Communication), que edita mangás, ressalva: “Os gibis continuam sendo a porta de entrada para o universo dos quadrinhos e isso dura até a adolescência”.
Como prova disso, estão sendo lançados em nova versão os famosos gibis da Luluzinha. Após 15 anos fora das bancas, a menina criada por Marjorie Henderson Buell está de volta em reedição da Ediouro. A intenção é atingir esse público saudoso, mas também as crianças de hoje a partir de uma releitura em estilo teen.
De acordo com a última pesquisa encomendada pelo Instituto Pró-Livro, instituição que visa o incentivo à leitura e que reúne entidades como a Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e a Associação Brasileira dos Editores de Livros Escolares (Abrelivros), os quadrinhos ocupam a sexta colocação como escolha de gênero de leitura entre os 95,6 milhões de brasileiros que declararam ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses (representa 55% do total da projeção do estudo, com mais de 172 milhões de pessoas ou 92% de toda a população brasileira). A pesquisa é realizada por triênios e tais resultados foram divulgados na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2008. Ainda assim, representam o que a entidade tem de mais atual, enquanto finaliza novas pesquisas (Veja Box na página 54).
No passado, as publicações eram praticamente direcionadas somente ao público infanto-juvenil. Com a aproximação dos quadrinhos ao formato de livro, o alvo passa a ser os frequentadores das livrarias, como adultos e mulheres também. Salta aos olhos: há muito mais títulos de HQ e o status novo dessa variedade confere lombada, capa dura e um lugar na estante de livros. “Calvin, Maitena e Neil Gaiman chegam à lista dos mais vendidos graças às mulheres. Chegamos a emplacar dois do Calvin na lista de best-sellers em uma semana”, destaca Campos, da Conrad.
O mercado dos mangás
Considerado por alguns um nicho à parte, porém não menos aguerrido, o mercado brasileiro de mangás está entre os principais do mundo, superado apenas pelos Estados Unidos nas Américas e igualando-se aos números da Espanha, por exemplo. A Editora Escala se aventurou no mercado com um título (Dili & Lili - Geração Mangá), mas a grande liderança fica para a editora JBC. Para ter ideia do volume de negócios, a JBC publica um novo mangá a cada dois ou três dias. O público leitor concentra-se na faixa dos 15 aos 22 anos, embora o feminino também seja responsável pelo crescimento. “Os mangás têm alcance mundial. Em todos os países em que entrou, se consolidou. A distribuição da JBC é nacional, indo de norte a sul do país, tanto em bancas quanto em livrarias, além das lojas especializadas em quadrinhos”, conta o publisher Júlio Moreno. A empresa tem como missão aproximar o Brasil e o Japão e atua também como licenciadora de produtos japoneses no Brasil e de brasileiros no país asiático.
Entre os destaques que a JBC possui no Brasil, estão Rosario Vampire, que virou febre por conta da moda dos vampiros, e o clássico Cavaleiros do Zodíaco. As tiragens dessas publicações variam entre 10 e 50 mil exemplares, conforme o título. Inicialmente, eram lançados principalmente obras shonem (para meninos) e pouquíssimas shojo (para meninas). “Há três anos, ficou bem mais equilibrado entre shonem e shojo e começamos a publicar também clássicos, títulos adultos e até mesmo religiosos. Atualmente, um dos nossos grandes sucessos é a Bíblia produzida em formato de mangá”, revela Moreno, publisher da editora.
Quanto à publicidade, ele observa que o mercado publicitário ainda não percebeu o poder de penetração dos mangás entre o público adolescente. “Os mídias, em geral, gostam muito dos mangás, mas o departamento de marketing das empresas grandes ainda prefere as publicações mais tradicionais. Assim, para a editora, o que conta mesmo é o resultado de vendas em bancas e livrarias”. O mesmo afirma o diretor editorial da Conrad: “Publicidade, tradicionalmente no Brasil, não tem peso nenhum nos resultados econômicos dos gibis”, aponta.
Na verdade, o uso de publicidade nas histórias em quadrinhos é um assunto polêmico e com duas visões distintas. De um lado, há profissionais que consideram positiva a utilizacão de anúncios em HQs e colocam a liberdade criativa e visual desse meio como um dos principais argumentos. Contudo, há também quem seja contra a propaganda nas HQs, especificamente nos gibis. Estes afirmam que a linguagem e outros elementos da comunicação publicitária poderiam ser usados para persuadir o público infantil.