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Reportagem

Entrevista

Palavra de honra


A profissão que é a expressão da democracia ainda encontra pouco eco na mídia brasileira


Por Inês Pereira

Luiza Sigulem/Folha
Há 20 anos na Folha, Suzana conhece os nós e pontos de tensão de todo o jornal

 

Quem vê Suzana Singer tranquilamente sentada à sua bancada em uma sala silenciosa só para ela, no prédio da Folha de S.Paulo, não sabe quantas pilhas de jornais inteiros ela dissecou, e-mails desagradáveis respondeu ou olhares hostis de colegas enfrentou. No segundo mandato como ombudsman, seu texto sai do computador sem passar pelo crivo do editor e vai direto para a publicação na edição de domingo do jornal. É um trabalho solitário, sem trocas de ideias nem edição. Senhora de suas palavras, ela garante que a autonomia para escrever é total. "Trabalho como ombudsman há quase um ano e meio e nunca recebi nenhum telefonema dizendo 'olha, esse assunto não pode'.

Não há constrangimento em falar disso ou daquilo, e é daí que vem a força da Folha e o leitor percebe que ela leva a sério essa autonomia. Até porque, se o nosso trabalho começar a ser censurado, não fará mais sentido ele existir".

Para começar, no ofício do ombudsman, palavras positivas não são vistas com bons olhos e as críticas precisam ser dosadas à perfeição, senão desandam como um bolo preparado com muito fermento. A velha história do 'se correr o bicho pega...', no caso de Suzana, se elogiar o bicho pega, se criticar o bicho come, é um fato. "O ombudsman é uma figura que incomoda muito. Primeiro, porque ele abre uma janela enorme para que os leitores possam reclamar de todo mundo que escreve, e aí a redação tem que dar satisfação o tempo todo a eles. E isso, é claro, incomoda os redatores. E segundo, porque é um espaço em que a pessoa critica a própria empresa, de dentro dela".

As atividades de Suzana não acabam quando termina o expediente. Parte do trabalho ela faz em casa, em especial aos domingos. "Mas é um trabalho em que você está sempre ligado, pois sempre pode acontecer algo de última hora, ou uma mudança repentina de ideia que me leve a reescrever todo o texto. Ou simplesmente, olhando em algum site, percebo que ainda há alguma coisa para inserir".

Intimidade com os cadernos, os especiais, as grandes reportagens, os títulos e subtítulos, as colunas ela tem de sobra. Suzana é cria do jornal que critica. Dos 44 anos de idade, 20 foram vividos na redação. "Comecei a minha carreira na Folha. Depois de um ano de faculdade, eu já vim trabalhar no jornal. Era secretária de redação quando me chamaram para essa função. Foi uma mudança drástica - de uma rotina superexecutiva, eu fui para outra em que teria toda a liberdade do mundo e nenhum poder superior para intervir no produto. Em resumo, antes eu fazia muito, agora eu só penso (risos)".

"O ombudsman é uma figura que incomoda muito. Primeiro, ele abre uma janela enorme para que os leitores reclamem de todo mundo que escreve. E isso incomoda os redatores. Segundo, é um espaço em que se critica a empresa, de dentro dela"

Como você vê a evolução do ombudsman desde que ele foi instituído na Folha?
Eu acho que começou de um modo heroico. É uma função nova aqui no Brasil e ainda não existe nenhum estatuto escrito do ombudsman; então, a sua função foi sendo definida na prática. O que já tinha inicialmente eram a independência total do ombudsman e a liberdade total de opinar de um modo que nenhum redator podia. Essas coisas já estavam claras desde a época do Caio [Túlio Costa]. Mas todo o relacionamento com os leitores e com a redação era algo que as pessoas ainda estavam "pagando pra ver". Mesmo após todos esses anos, ainda é uma coisa considerada estranha. O termo "ombudsman" não foi assimilado pela maioria e ainda estamos começando no ramo, mas hoje eu posso dizer com mais tranquilidade que sou uma ombudsman, pois algumas pessoas do meio vão entender. Estamos mais consolidados em relação à expectativa dos leitores e ao procedimento todo. E com a disseminação do e-mail, entre outros meios de comunicação, o volume de solicitações cresceu muito, então hoje a profissão é muito maior e mais valorizada.

Quais são as características principais para ser um ombudsman?
Essa pessoa tem de ter experiência jornalística (um certo amadurecimento nessa área sempre ajuda), conhecer de cor e salteado todos os pilares do jornal ou revista em que trabalha, ter boa autoestima, de modo que se trabalhe quase o tempo todo com críticas, e um pouco de sangue frio para criticar os seus colegas sem entrar em conflitos internos desnecessários. Você também tem de ser corretíssimo para não dar margem a nenhuma dúvida que o leitor possa ter. Um dos trabalhos do ombudsman é comentar em palestras sobre a necessidade da função, como ela funciona. Somos muito solicitados por escolas e faculdades de jornalismo, além de empresas. Eu, na medida do possível, sempre vou a qualquer lugar que me chamarem. Posso estar falando em uma grande empresa ou em uma pequena escola, mas a minha postura para com os ouvintes é sempre a mesma - sem deixar de falar tudo aquilo que posso dizer e de ouvir os comentários e perguntas.

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