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| Cora trouxe aos leitores as primeiras notícias sobre tecnologia do país, na coluna criada por ela |
No mundo de Cora há lugar para tudo. Em seu amplo e antigo apartamento onde vive, no Rio de Janeiro, os gatos se esgueiram entre os livros, os jornais, as revistas, seus objetos de deleite - dezenas de canetas, centenas de cartões, envelopes e folhas de papel feitos à mão -, o iPhone, o iPad, o laptop, o computador de mesa, câmeras digitais, músicas, filmes... Na mesa de trabalho, blocos de diversos tamanhos e estágios de uso convivem pacificamente com modem, roteador, celulares. Aos 58 anos, a jornalista Cora Rónai navega com familiaridade entre diversos mundos: da intelectualidade carioca à defesa dos animais e do meio-ambiente, mas, sobretudo, ela decifra o código geek como ninguém.
Colunista de tecnologia e cronista do Segundo Caderno do jornal O Globo, Cora desbravou o então inóspito terreno feito de bites, interfaces complexas e conexões truncadas. Desde 1986, quando quase ninguém conhecia a web, ela já fazia suas experimentações no micro e sabia que nada seria como antes a partir da internet discada.
Foi a primeira a escrever sobre o assunto tecnologia, em 1987, no Jornal do Brasil, criando uma coluna só sobre computação. "Novidadeira" por natureza, Cora foi a primeira jornalista-blogueira. Seu internETC está no ar desde 2001 e inspirou muito do que nasceu no ciberspaço anos depois. Ela também saiu na frente utilizando a fotografia digital como ferramenta de comunicação.
O deslumbramento hoje com o Instagran, ela antecipou com sua experiência em 2006, quando consolidou seu trabalho como pioneira também no uso dos celulares com câmera, que resultou no livro Fala Foto: com uma seleção de imagens realizadas ao longo de cinco anos com mais de uma dezena de diferentes aparelhos - o primeiro livro de fotos de celulares do mundo. Definitivamente, Cora não teme o novo. "Nunca entendi o medo que as pessoas tinham de chegar perto do meu computador [nos anos 80]. Máquinas são máquinas! No pior dos casos estragam, conserta-se e pronto", ela brinca.
Ela sabe, entretanto, que a evolução tecnológica está apenas no começo. "Será fundamental encontrar uma linguagem adequada aos novos meios. Acho que ainda estamos longe disso, mas um dia acontece. Quando a televisão apareceu, passou um bom tempo usando a linguagem do teatro antes de encontrar seu caminho próprio. Alguns pecam por falta, outros por exagero. A revista National Geographic (Ed. Abril) é um exemplo de quanto se pode errar por excesso: está tão deslumbrada com as possibilidades oferecidas pelos tablets que não dá prazer em ler. Fiquei muito aliviada quando a minha assinatura eletrônica acabou e pude voltar à edição em papel."
Cora é dona de um texto leve. A comunicação com seus interlocutores, seja no meio digital ou no impresso, flui - ela recebeu o Prêmio Comunique-se de Melhor Jornalista de Informática em 2004, 2006 e 2008. Mas a prática de redigir veio antes da paixão pela tecnologia. Em Brasília, nos anos 1970, começou a carreira no Correio Braziliense e nas sucursais da Folha de S.Paulo e do Jornal do Brasil. Mas a navegação nas águas desconhecidas da internet alterou a rota e, em 2001, já especialista, criou o caderno de tecnologia 'Info etc.', que editou até 2008, no jornal O Globo.
"Quando a televisão apareceu, passou bom tempo usando a
linguagem do teatro antes de encontrar seu caminho próprio.
Alguns pecam por falta, outros por exagero"
Quem atualmente se interessa por internet e pelo universo conectado, segue Cora, seja no Blog, no Twitter ou na sua coluna do jornal. Ela acampa na Campus Party [o evento que reúne, em São Paulo jovens de todos os cantos do país em uma espécie de Woodstock do mundo digital em todas as suas plataformas e posibilidades de uso], visita feiras e eventos pelo mundo, conversa virtualmente com algumas centenas de "amigos" com ideias e de tribos tão diversas quanto a própria web. Testa e comenta a performance de celulares, câmeras, softwares, viaja até as nuvens e conta como foi.
No ciberespaço, dá dicas que fazem a alegria dos seguidores, como a loja virtual especializada em low-tech e brinquedinhos sofisticados como minicâmeras Nikon e Canon e outras preciosidades. Sobra espaço para comentar uma viagem à Índia, fotos divertidas dos gatos e a Primeira Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, que reuniu cerca de 150 escritores brasileiros e estrangeiros. "De tirar o fôlego!"
"Naquele tempo computador era coisa de meia dúzia de nerds,
ninguém tinha ideia do que era, mas eu estava encantada com o
que via. Pedi para escrever a coluna no JB. Às vezes saía na
Ciência, às vezes na Economia... Nem minha mãe achava"