Desde o final de fevereiro, quando abandonou a vice-presidência da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), Dennis Munhoz, presidente da Rede Record de Televisão, assumiu uma frente de batalha para impedir que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) abra linhas de crédito para o financiamento das dívidas do setor de comunicação. Segundo Munhoz, o único beneficiário desse projeto seria a Rede Globo de Televisão, que é a maior devedora brasileira do setor da comunicação - valor estimado em R$ 6 bilhões. Nesse raciocínio, ele é acompanhado pelas direções do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) e da Rede TV!.
Em janeiro de 2003, Munhoz passou de vice a presidente da Record, função até então ocupada pelo criador da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. O atual presidente, que também é evangélico, garante que a emissora é laica. E mais que isso, que a igreja participa dos negócios da emissora apenas no papel de cliente, já que paga para fazer uso do horário da madrugada. Nessa conversa, Munhoz diz de que forma o BNDES poderia ajudar as empresas de comunicação, fala da concorrência no setor e faz projeções para a Rede Record.
NEGÓCIOS DA COMUNIÇÃO - Como foi aquela audiência dos representantes de TVs na Comissão de Educação do Senado?
DENNIS MUNHOZ - Foi muito parecida com a do ministro Luiz Gushiken [ministro-chefe da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica] e do doutor [Carlos] Lessa [presidente do BNDES]. O senado não tinha informações sobre o assunto, então tentamos explicar o que estava acontecendo. As três grandes redes, que somos nós, o SBT e a RedeTV!, foram claramente contra o dinheiro do BNDES para pagamento de dívidas. A Globo e a Bandeirantes se manifestaram favoravelmente ao empréstimo para o pagamento de dívidas. A diferença essencial é essa.
NC - Mas houve um posicionamento do BNDES mais claro, dando um indicativo de que não era o que se pensava, os valores também não eram os que se especulava.
DM - O projeto apresentado pela Maria Silvia [Bastos Marques, da consultoria financeira MS&CR2, contratada no fim do ano passado para calcular a dívida da mídia brasileira, estimada em R$ 10 bilhões] para o BNDES, foi a única informação passada para nós. E é esse projeto que está no BNDES.
NC - O fato de o BNDES ter exigido garantias de condições de pagamento, não altera o cenário?
DM - O que precisa ficar claro para a opinião pública é que estão tentando desvirtuar o assunto. É um plano de financiamento via BNDES que, do jeito que ele está estruturado, favorece apenas uma única emissora, que é a Globo. Porque para o endividamento, a liberação da verba deixa para trás uma série de obstáculos. Você apresenta o balanço onde consta a dívida e pronto. Para investimento - ninguém fala até hoje qual é o dinheiro que há para investimento -, você tem que seguir todas as normas, apresentar certidões, projeto, garantias etc. Existe uma facilidade maior para o equacionamento da dívida, do que para a liberação de verba para investimento.
NC - É onde está a polêmica.
DM - Exatamente. Todos nós somos favoráveis ao dinheiro do BNDES para investimento, geração de emprego, de conteúdo, compras de equipamentos etc. Vem aí a TV Digital, que vai consumir muito dinheiro. Ninguém esta em condição de gastar agora com isso.
NC - O próprio Nelson Sirotsky [diretor-presidente do grupo gaúcho RBS] disse à revista [leia página 34] que é uma forma de preconceito o BNDES nunca ter investido em comunicação.
DM - Acho que o dinheiro para investimento na mídia é bem-vindo. Existe um preconceito mesmo. Por que a mídia nunca recebeu esse dinheiro para investimento? Agora, a partir do momento que um banco paga a sua dívida, tem uma diferença muito grande. E foi o que eu comentei com eles. Qual é a garantia? A partir do momento que você libera dinheiro para investimento, você tem toda perspectiva de geração de emprego e de conteúdo. Agora, se você usa o dinheiro para pagar sua dívida, quem pegou esse dinheiro não tem comprometimento social de gerar um único emprego. Ele vai pegar esse dinheiro e, se daqui a seis meses ele tiver em dificuldades de novo, ele vai demitir.
NC - Que condições o sr. consideraria ideais para que se começasse uma boa conversa?
DM - Falar exclusivamente de investimento. Porque falta dinheiro para quase tudo no Brasil, para educação, para saúde, para segurança pública. Quer dizer, o pouco recurso que se tem deve ser dirigida para investir.
NC - E onde a Record investiria esse dinheiro?
DM - Não é só a Record. Acho que com advento da TV Digital, com estúdios, equipamentos digitais, teledramaturgia. Todas as emissoras, sem exceção, estão interessadas nisso.
NC - Porque sua saída da Abert veio apenas quatro meses após a entrega do pedido ao BNDES?
DM - É que a coisa começou errada. O SBT não fazia e não faz parte da Abert. Mas nós, a Record e a Rede TV!, que estávamos na vice-presidência da Abert, não tivemos conhecimento desse projeto apresentado pela Maria Silvia. Ela foi contratada, elaborou um projeto, apresentou ao BNDES sem que nós tivéssemos ciência dele.
NC - Quer dizer que ninguém olhou antes?
DM - Não. Nós cobramos esse posicionamento do Paulito [Paulo Machado de Carvalho Neto, presidente da Abert]. Depois de muita insistência, ele trouxe a Maria Silvia aqui para conversar com a gente e ela nos mostrou [o projeto]. Eu falei: "Quem falou que a gente concorda com isso aqui?". "Ah, mas isso é um anseio do setor", ela disse. E eu falei: "Que setor? Quem te falou isso? Onde você colheu esses dados?" E o que mais me causou estranheza, também, foi que na última reunião que eu participei da Abert, quando eu decidi pela minha saída, eu perguntei a todos os vice-presidentes que estavam presentes nessa assembléia e nenhum disse ter ciência desse plano.
NC - E a Globo estava presente?
DM - O representante da Globo estava presente.
NC - E disse que não conhecia o plano?
DD - Disse que também não conhecia o plano. E eu indagando a Maria Silvia falei: "quem conhecia isso aí?" E ela: "o presidente conhecia". Depois o Paulito veio me explicar que ele conheceu algumas horas antes de ser entregue. É incoerente, não pode acontecer dessa forma.
NC - Sua saída é irreversível?
DM - Sem dúvida. Nós voltamos para a Abert em meados de 2002, esperando ver a entidade atuar como uma associação e não para atender anseios de uma única emissora.
NC - O senhor pretende montar uma dissidência junto com outras emissoras?
DM - Nós já temos a Abratel [Associação Brasileira de Radiodifusão e Telecomunicações], a que nós continuamos filiados, a RedeTV também. E agora nós estamos tentando viabilizar junto com o SBT uma nova entidade.
NC - O senhor concorda com a declaração do ministro José Dirceu de que o setor da comunicação é uma questão estratégica e de Estado?
DM - Concordo, é estratégico. Na Comissão do Senado tudo mundo bateu muito nessa tecla, mas estão chovendo no molhado. Não é porque ele é um setor estratégico que você tem que pagar a dívida dele. Você tem que investir nele, acreditar, preservar o capital nacional, manter a geração de conteúdo nacional.
NC - Mesmo sob a hipótese de ver quebrar uma emissora que é uma potência?
DM - Não quebra. E as palavras não são minhas, são do Evandro [Carlos de Andrade, diretor-geral do Departamento da Central Globo de Jornalismo, morto em maio de 2001]. Ele falou que a Globo tem condição de pagar a dívida dela. Se tem, por que o recuso do BNDES tem que ir para lá?
NC - O sr. concorda com essa avaliação de que para a Globo é fácil sair da crise?
DM - Não é fácil. Ela precisa se adequar a uma nova realidade, uma realidade que ela nunca trabalhou. Ela deve hoje aproximadamente R$ 6 bilhões de reais, mas tem um faturamento anual de R$ 3 bilhões e apresentou um lucro líquido, no ano passado, de R$ 800 milhões. Com esses números, não é tão difícil sair da crise.
NC - O que eles deveriam fazer?
DM - Têm que abandonar atitudes monopolistas que geram a dívida. Não dá mais para pagar US$ 240 milhões de dólares numa Copa do Mundo, não dá para contratar artistas por três, cinco ou dez vezes o valor do mercado e não utilizá-lo, não dá para manter todos os escritores de novela sob contrato e utilizar apenas um. Senão, daqui a três anos, a dívida está igual.
NC - É possível mudar essa tradição brasileira em que o Estado sempre aparece para socorrer em momentos de crise?
DM - Tem que mudar. Os senadores eles mesmos concordam que muitos desses empréstimos, para os bancos, para o setor energético, foram mal feitos e deram prejuízos ao banco e ao país.Inclusive o próprio Tribunal de Contas da União analisou o aporte de R$ 360 milhões do BNDES para a Net, feito no final de 2002, e publicou o resultado no Diário Oficial da União de 15 de março. Lá aponta uma desvalorização do dinheiro que o BNDES colocou nessas ações da Net de 99,9%. Aqueles R$ 360 milhões que representavam 20% da Net, da Globo Cabo, hoje não representam nem 1 milhão. É um prejuízo terrível. Inclusive a orientação final do TCU é que o BNDES tomasse cuidado e não emprestasse mais dinheiro nessas condições para essa empresa que causou um tremendo prejuízo ao erário público.
NC - Sem uma linha de financiamento da dívida da Rede Globo, o senhor acredita que muda o quadro da concorrência a curto prazo?
DM - Muda, em curto ou médio prazos. A Globo detêm hoje 50% de share [participação no mercado, na audiência] e 80% de verba publicitária da Brasil. Então ela tem hoje 30 pontos percentuais a mais do que, teoricamente, mereceria pela audiência que tem. Uma empresa com 80% da publicidade, que fatura R$ 3,2 bilhões por ano, e tem lucro de R$ 800 milhões, até que me provem ao contrário, essa empresa não precisa de ajuda. Quer dizer, se ela precisa de ajuda, as outras quatro então...
NC - E a Record não tem dívidas?
DM - Ela não deve para nenhum fornecedor nem para bancos. Tem alguns contratos renegociados que estão sendo cumpridos rigorosamente. Mas a Record não tem dívidas.
NC - Nem dívidas fiscais?
DM - Nós aderimos ao Refis, em 2000, mas também está sendo pago normalmente. Mas o Refis é uma recuperação fiscal, estamos pagando para o governo, não recebendo dele. E, na época, aderiram mais de 140 mil empresas. Quer dizer, não foi feito um plano para meia dúzia.
NC - O sr. confirma a informação de que a Igreja coloca mensalmente R$ 6 milhões na Rede Record?
DM - A Igreja Universal do Reino de Deus é uma cliente importante da Rede Record, como é uma cliente de outras emissoras. Ninguém comenta, mas ela tem horário na Bandeirantes, na Gazeta, em alguns estados ela loca horário na RedeTV! também.
NC - Ela é fundamental no balanço?
DM - Ela ocupa um espaço e paga por esse espaço.
NC - Mas qual o percentual disso?
DM - Isso o contrato não permite divulgar.
NC - É a principal fonte de faturamento?
DM - Não, não é a principal.
NC - Como o senhor vê as outras emissoras de grupos religiosos?
DM - Estão crescendo. Hoje mesmo eu vi que algumas entidades estão tentando uma televisão a cabo evangélica. A televisão vem passando por uma modificação muito grande. Eu acho que hoje as igrejas evangélicas, e as outras igrejas também, são clientes importantes para a manutenção da televisão. Ela ocupa um espaço como de um programa de vendas.
NC - Gostaria que o sr. fizesse uma análise da qualidade das emissoras concorrentes e falasse das estratégias e projetos que vão adotar.
DM - A gente visa ao segundo lugar e estamos trabalhando para isso. Investimos pesado na novela [Methamorfhoses], vamos começar com um programa dominical no final da tarde, renovamos o pacote dos eventos esportivos e de filmes, investimos na programação. E se o mercado publicitário apresentar algum crescimento, a Record vai crescer porque nós temos todos os produtos que o mercado publicitário busca, o infantil, a novela, o jornalismo e o esportivo.
NC- Mas cresce dentro dos 20% ou cresce avançando nos 80% da Globo?
DM - Avançando nos 80% da Globo. Nós apresentamos um crescimento agora nesse primeiro trimestre de praticamente 20% em relação ao mesmo período do ano passado. É um crescimento publicitário real.