Depois de meia hora de conversa, o homem de um milhão de exemplares avisa ao repórter que precisará interromper a ligação. "Rapaz, minha mulher está me olhando com cara feia", explica, em seu gauchês pronunciado. Pudera: no dia seguinte, precisam chegar à gráfica os originais de 450 anos em 24 horas, cujo projeto coordenou, sob encomenda do governo do Estado de São Paulo e patrocínio da Nossa Caixa. Essa homenagem à capital paulista traz imagens de 45 fotógrafos, acompa-nha---das de textos-legenda de três mil toques, que o escritor, cometamos aqui uma inconfidência, ainda não havia concluí-do. Como o lançamento já tem data marcada, atrasos são intoleráveis. A bronca da mulher é a de quem divide responsabilidades empresariais: desta vez, o livro sairá pela Buenas Idéias, a editora do escritor.
Longe dali, o homem de dois milhões e meio de exemplares enfrenta apuro semelhante e pede desculpas ao repórter pela demora no envio das respostas. "Tem editor feito pitbull no meu pé", diz. Os originais em atraso referem-se também a um projeto sob encomenda, o primeiro na carreira do escritor: uma história da agência W/Brasil. "Já havia recusado vários convites, mas acabei aceitando esse, que partiu do Washington Olivetto, porque sou amigo dele há 30 anos, acompanho sua carreira desde o começo. No meio da pesquisa descobri que a história da agência e de seus três sócios (Olivetto, Gabriel Zellmeister e Javier Llusá) é tão interessante que eu poderia tranqüilamente tê-la sugerido para meu editor se não tivesse sido encomendada."
Não se escreve a história do mercado editorial brasileiro nas últimas duas décadas sem fazer referência aos dois personagens acima. O primeiro é Eduardo Bueno, o Peninha, que obteve o feito, durante a celebração dos 500 anos da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, de ocupar quatro dos cinco primeiros postos na lista de mais vendidos em não-ficção da revista Veja com livros de história que caíram no gosto do leitor brasileiro. A Viagem do Descobrimento, o primeiro de uma série de sete volumes que chegará em breve ao quarto, publicada pela Objetiva, vendeu 320 mil exemplares. Náufragos, Traficantes e Degredados, 182 mil; Capitães do Brasil, 97 mil. Sua obra completa, incluindo versões em pocket book, bateu a marca de um milhão de exemplares vendidos.
O segundo personagem é Fernando Morais, a quem Peninha atribui a responsabilidade por "ter aberto essas portas" - as que permitem hoje a jornalistas atuar no mercado editorial como autores de biografias, livros históricos e almanaques que muitas vezes se tornam best-sellers. Seus livros - entre os quais A Ilha, Olga, Chatô, Corações Sujos e Cem Quilos de Ouro (todos, hoje, no catálogo da Companhia das Letras) - foram publicados em outros 19 países, com um total aproximado de 2,5 milhões de exemplares vendidos. Aproximado, apenas: Morais está processando a editora Yasan Anilar, de Istambul, que sem sua autorização "há anos vem tirando sucessivas edições de Olga em turco, não apenas para venda na Turquia, mas em todos os países da Europa onde vivem comunidades turcas e curdas".
A exemplo de diversos outros colegas que migraram das redações para o mercado editorial, ambos tornaram-se escritores profissionais por obra das circunstâncias. "Quando o governo federal anunciou, em 1970, que iria cortar seis mil quilômetros de selva amazônica com uma estrada, o Jornal da Tarde, em que eu e o jornalista Ricardo Gontijo trabalhávamos, decidiu nos mandar para lá, com o objetivo de descrever a aventura da construção da Transamazônica", lembra Morais.
"Conosco viajou o fotógrafo Alfredo Rizzutti. O JT publicaria nossa reportagem em uma série de cinco cadernos, cada um deles de quatro páginas limpas, sem anúncios. O trabalho teve grande repercussão, ganhou o Prêmio Esso de Reportagem de 1970 e chamou a atenção do editor Caio Graco Prado, da Brasiliense, que sugeriu a publicação de Primeira Aventura na Transamazônica em livro. Para dois jovens e obscuros repórteres, sem nome na praça, foi uma surpresa ver o livro vender mais de 20 mil exemplares", conta o jornalista.
A idéia original de A Ilha, até hoje sua obra mais vendida no Brasil, era fazer uma série de reportagens para a Visão, onde trabalhava em 1974. "Como a revista não se interessou, reescrevi tudo, desta vez, sim, pensando em um livro. Com o acirramento da repressão no Brasil em 1975, tive que engavetar os originais para só publicar o livro no final de 1976", explica. A partir do sucesso de A Ilha, Morais percebeu que era possível viver apenas de direitos autorais. "Aí nasceu a idéia de fazer Olga, cujos direitos permitiram que eu pudesse me dedicar a pesquisar e escrever Chatô", diz.
A migração de Peninha envolve, de fato, um percurso geográfico à moda beatnik. "Sempre fui apaixonado pelo século XVI e, depois de fazer uma viagem de carona dos Estados Unidos até Porto Alegre, entrei na piração do primeiro encontro do europeu com o indígena", lembra. A partir daí, e por prazer, intensificou as leituras sobre história da América. Só acreditou que "era a hora" de escrever sobre isso quando se aproximou a comemoração dos 500 anos. "Esperava que A Viagem do Descobrimento vendesse uns 20 mil exemplares, o que já seria espetacular", admite. Hoje, faz piada com a nova rotina. "Achei que me livraria da vida estressante da redação. Bem, me enganei. Mas foi uma grande evolução."
Além de Morais, ele menciona Jorge Caldeira (autor de Mauá, Empresário do Império, Companhia das Letras), William Waack (Camaradas, Bibliex) e Ruy Castro (O Anjo Pornográfico e Estrela Solitária, Companhia das Letras) como exemplos de jornalistas capazes de mostrar que "a diluição natural da abordagem jornalística, menos sólida e densa do que a acadêmica, não significa fragilidade". Quem estabelece "outro patamar", segundo ele, é Elio Gaspari, que já publicou três de seus prometidos cinco livros sobre a trajetória do ex-presidente Ernesto Geisel e do ex-ministro Golbery do Couto e Silva. "Aquilo é investigação historiográfica, que mistura o melhor do jornalismo com o melhor da abordagem histórica acadêmica", resume.
Morais também acredita que a linguagem jornalística contribui para o fenômeno dos best-sellers. "Salvo exceções, a maioria desses livros pode ser lida por qualquer pessoa bem alfabetizada. Mas acho também que, ao abandonar a grande reportagem, a imprensa deixou o terreno livre para os autores de livros de não-ficção", analisa. "O repórter de jornal descobre um bom assunto, mas sabe que para publicá-lo terá que reduzi-lo de tal forma que isso acabaria mutilando a história. Decide pesquisar por sua própria conta, nas horas vagas ou nas férias, e escreve um livro. Se vender bem, terá dado o primeiro passo para uma carreira solo. A tentação é cada vez maior."
Embora aos olhos dos jornalistas seja inevitável reparar nas vendas de livros escritos por colegas, editores e livreiros não vêem aí um fenômeno particular. "Se um jornalista escreve um romance, assume o papel de um romancista; se faz uma biografia, torna-se um biógrafo, e assim sucessivamente", compara Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras - que, além de publicar autores como Morais e Ruy Castro, lançou, em 2003, a coleção Jornalismo Literário, coordenada por Matinas Suzuki Jr. (colunista desta revista), com textos clássicos de repórteres como Gay Talese, Truman Capote, Joseph Mitchell e John Hersey.
"Nesse sentido, não olho para livros escritos por jornalistas como uma categoria especial. Não os vejo como um fato em si", observa.
Schwarcz acredita que mesmo a even-tual "fama do jornalista" alavanca pouco as vendas. "Tem que ver se o livro é bom ou não. Os do Elio Gaspari se sustentam pela qualidade, e não porque ele seja jornalista", acredita. O livreiro Pedro Herz, da Cultura, analisa o cenário de forma semelhante. "Não se separa li-vro pela profissão do autor. Evidentemen-te que, se ele tem nome consagrado, despertará interesse. É comum com jornalistas, que são conhecidos, mas não implica necessariamente sucesso. Ninguém chega aqui e procura livro de jornalista. Procura livro novo - e livro novo é todo aquele que você ainda não leu. Pode ser a Bíblia."
O editor Marino Lobello, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro, também acredita que esses livros "não constituem uma categoria à parte, pois trafegam na mesma faixa de outras obras escritas por pesquisadores e historiadores", com a ressalva de que "acabam por se tornarem livros mais visíveis, pela notoriedade de seus autores, e muitas vezes mais lidos, dada a familiaridade dos jornalistas com a construção de textos leves e convidativos". A jornalista Luciana Villas-Boas, diretora-editorial da Record, tem opinião levemente distinta. "É claro que um livro de jornalista famoso tem muito mais chances comerciais do que um lançamento de autor novo, ainda sem qualquer reconhecimento da sociedade. Quem não gostaria de publicar o livro do Elio Gaspari?", provoca.
E não só pela fama do autor e pela certeza da boa acolhida dos seus colegas da imprensa e da TV, argumenta ela, mas também "pela qualidade do texto, conhecida e comprovada há anos por milhares de leitores nas várias publicações em que ele trabalhou".
É o que justificaria uma "aposta certeira em termos comerciais" como a de Abusado - O Dono do Morro Dona Marta, de Caco Barcellos, com uma primeira tiragem em torno de 40 mil exemplares.
"A busca da clareza que se exige no texto jornalístico tem efeitos positivos não só na escrita de biografias e grandes reportagens. Nesses gêneros, a compreensibilidade é condição indispensável, primordial. Na ficção, nem tanto. A linguagem literária pode ser mais desafiadora e experimental, mas mesmo aí muitas vezes o jornalista-romancista não abdica da clareza, da comunicação com qualquer tipo de leitor, com resultados excepcionais", observa Luciana.
Como exemplo, ela menciona O Dia em que Matei Meu Pai, de Mario Sabino, redator-chefe da revista Veja, "muito respeitado no seu meio, mas relativamente pouco conhecido do público em geral", lançamento recente da Record. "Conscientemente, Sabino desenvolveu uma linguagem para seu romance - de profundas indagações filosóficas e psicanalíticas - que não comprometesse a compreensibilidade de uma história de mistério, em que o que se busca descobrir não é o autor, mas a motivação do crime", analisa. Luciana lembra que "se excluirmos a produção rigorosamente acadêmica, a maioria da não-ficção brasileira e também boa parte da ficção são escritas, hoje, por gente que já trabalhou ou colaborou na imprensa - que no Brasil se desenvolveu muito na segunda metade do século passado, funcionando como um pólo catalisador para os talentos literários da classe média". Ao mesmo tempo em que abriu empregos para quem gostava de escrever, a imprensa "formou e serviu de escola de texto".
É natural, pensa Luciana, que "em algum momento muitos desses profissionais do texto quisessem se expressar por um veículo maior como o livro". "O que talvez se possa dizer é que essa produção literária feita por jornalista aumentou justamente por causa da crise e retração da imprensa nos últimos cinco anos", especula.
A diretora-editorial da Record ainda diz que a crise da imprensa brasileira contribui para que jornalistas se transformem em escritores: "Muitos jornalistas que perderam emprego passaram a ter tempo para se dedicar à produção de um livro. E outros, que permaneceram empregados, preferiram reduzir ainda mais o tempo de lazer em benefício da produção literária, como forma de suportar as adversas condições de trabalho nas redações dos veículos de comunicação."
A jornalista acredita que publicar um livro "pode ser uma das mais experiências mais afirmadoras da identidade de uma pessoa, certamente um antídoto para uma rotina pouco gratificante."
Fogueira das Vaidades
Livros escritos por jornalistas sempre
estão na lista dos mais vendidos
Durante os últimos 12 meses, sempre houve ao menos um livro brasileiro escrito por jornalista na lista dos mais vendidos de não-ficção publicada pela revista Veja. O recorde ocorreu na edição de 10 de dezembro, com seis títulos entre os dez selecionados: A Ditadura Enver--gonhada, A Di--ta-dura Escancarada e A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari (Companhia das Letras); A Capital da Solidão, de Roberto Pompeu de Toledo (Objetiva); Abusado - O Dono do Morro Dona Marta, de Caco Barcellos (Record); e O Guia dos Curiosos - Língua Portuguesa, de Marcelo Duarte (Panda). A Ditadura Derrotada ocupou por sete semanas o primeiro posto do ranking.
Outros cinco títulos escritos por jornalistas também freqüentaram a lista desde maio de 2003: Ayrton, O Herói Revelado, de Ernesto Rodrigues (Objetiva); A Era do Escândalo, de Mário Rosa, e Vidas do Carandiru, de Humberto Rodrigues (ambos da Geração); O Sonho Brasileiro, de Thales Guaracy (A Girafa); Brasil: Uma História, de Eduardo Bueno (Ática). Se a relação incluísse coletâneas de crônicas e contos publicados na imprensa, seria preciso acrescentar mais três livros: As Mentiras que os Homens Contam, de Luís Fernando Veríssimo, e Amestrando Orgasmos, de Ruy Castro (ambos da Objetiva); e Pequenos Delitos e Outras Crônicas, de Walcyr Carrasco (Best Seller).
As listas de mais vendidos - nas categorias ficção, não-ficção, e auto-ajuda e esoterismo - de Veja se baseiam em informações fornecidas pelas maiores livrarias de 12 capitais brasileiras. Não cobrem, portanto, todo o mercado livreiro, e não computam vendas por websites (exceto os mantidos pelas livrarias que participam da pesquisa, como Cultura e Fnac) e feitas pelas editoras diretamente ao consumidor, inclusive aos governos federal, estaduais e municipais. Embora não correspondam a um censo, e revelem discrepâncias em relação a outros levantamentos, as listas de Veja costumam ser usadas como referência no País.
O escritor revelado
Ernesto Rodrigues faz sucesso já no primeiro livro
Cerca de 30 mil exemplares vendidos, em pouco mais de um mês, valeram ao jornalista Ernesto Rodrigues o ingresso na lista de best-sellers de não-ficção por Ayrton, O Herói Revelado (Objetiva). "Nunca planejei ser escritor. Havia saído de meu último emprego, depois de 25 anos em redações e no mercado corporativo, e tive acesso ao arquivo de um amigo que documentou 20 anos da história da Fórmula-1", lembra.
Em janeiro de 2002, já com a idéia de escrever uma biografia de Ayrton Senna, Rodrigues começou a "mergulhar no material" e a catalogá-lo, no computador, de acordo com três rubricas: "Beco", apelido de infância do piloto, para informações sobre sua vida pessoal; "Senna", sobre a carreira esportiva; e "Ayrton", para tudo o que não se encaixava nas duas anteriores. Chegou, inicialmente, a duas mil sinopses temáticas - no final do trabalho, seriam 4,5 mil. "Concluí que precisaria de alguma estrutura para desenvolver o livro", explica.
Procurou então um profissional especializado em formatar projetos para cadastro nas leis de incentivo cultural, conseguiu obter a carta de autorização para buscar patrocínio por meio da Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) e convenceu a multinacional El Paso a bancar a pesquisa e a redação. Em janeiro de 2003, tinha recursos para fazer duas viagens à Europa e uma ao Japão, e para contratar um jornalista para ser seu assistente, entre outras despesas. "Vida de autor americano", brinca Rodrigues.
"É difícil obter patrocínio, mas é uma belíssima saída", recomenda. "E não deixei de ser jornalista o tempo todo. Tratei cada parágrafo como se fechasse um texto para o Globo Repórter, para a Veja ou IstoÉ, em cujas redações trabalhei. Tive a preocupação de ser abrangente sem superficialidade." Com medo de se perder no volume de trabalho, Rodrigues diz que optou pela estratégia do "tijolinho" - um bloco de cada vez. "Não inventei nada e, com exceção da abertura, segui a ordem cronológica. Gostei muito da experiência e, embora antes não tivesse planos de escrever outro livro, agora estou pensando sobre o que fazer", afirma.
Estrelas solitárias
São poucos os livros de publicitários
A rivalidade entre jornalistas e publicitários começa nas faculdades de Comunicação Social e prossegue no mercado. Por mais que sejam obrigados a trabalhar em cooperação nas empresas que abrigam as duas categorias, como editoras de jornais e revistas, há uma disputa surda entre "os que preenchem os espaços que sobram das matérias" (os publicitários, segundo os jornalistas) e "os que preenchem os espaços que sobram dos anúncios" (os jornalistas, segundo os publicitários).
No mercado editorial, os números não deixam dúvidas de que publicitários são os que compram livros escritos por jornalistas. As exceções confirmam a regra, como Os Piores Textos de Washington Olivetto (Planeta), o único escrito por publicitário a entrar na lista dos mais vendidos de Veja durante os últimos 12 meses. Raro exemplo em seu círculo profissional de autor que alcança também o público não-especializado, Olivetto já havia assinado Corinthians: É Preto no Branco, com o jornalista Nirlando Beirão (DBA).
Francesc Petit, um dos sócios da agência DPZ, já publicou E Agora Jesus? e São Paulo de Bar em Bar (ambos da Siciliano), e Guia de Barcelona (Nova Fronteira), além de outros li-vros bem-sucedidos, mas dirigidos a estudantes e profissionais da área, co-mo Marca e Propaganda Ilimitada (ambos da Futura). Roberto Duailibi, um de seus sócios, especializou-se em organizar coletâneas de frases - a Mandarim publicou cinco volumes de seu Phrase Book - até culminar no Duailibi das Citações, cuja segunda edição, pela Arx, reúne 12 mil frases. Outro exemplo de publicitário que mirou em público mais amplo é o de Duda Mendonça, autor de Casos e Coisas (Globo).