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Otávio Frias Filho - Gestão plural
O diretor de redação da Folha de S.Paulo mostra a vocação para conjugar ideias e obter resultados de campeão O maior jornal do país tem à frente do comando mãos experientes, de quem herdou o ofício ainda bem jovem. Frias, o filho, assumiu a redação da Folha de S.Paulo há mais de 20 anos, antes dos 30. As poucas palavras e certo traço de timidez não o atrapalharam no momento de impor um estilo próprio de gestão, que aperfeiçoou a tradicional pluralidade vinda dos tempos do Frias pai, o Otávio Frias de Oliveira. "Gosto de discutir as coisas, ouvir várias pessoas antes de tomar uma decisão. Respeito a estrutura do jornal e a hierarquia; procuro ter uma forma de atuação profissional metódica." Frias também incluiu, de diversas maneiras, modernidade ao dia a dia da redação, seja desenvolvendo e atuando, simultaneamente, diferentes plataformas de geração de conteúdo; seja estreitando a relação com o leitor por meio de projetos como o Círculo de leitores, criado há dois anos. O sentido plural cultivado expressou-se, também, na busca de uma leitura crítica do veículo dentro da própria redação por meio da figura do ombudsman, desde 1989. "Muitos jornais americanos extinguiram esse posto, por diversas razões, principalmente econômicas. Acho um erro. O fato de ter um profissional de alto nível voltado a encontrar falhas e a submeter às edições da publicação a um exame crítico é essencial. Não quer dizer que se concorde necessariamente com as opiniões que o ombudsman tenha sobre a publicação. Eu, por exemplo, com frequência, discordo do que pensa e do que escreve o ombudsman da Folha." Disse Frias, nesta entrevista à Negócios da Comunicação, "a concorrência aumentou em todos os sentidos. As diferentes modalidades, plataformas e o surgimento de tantos veículos e tantas possibilidades competem pelo tempo e pelo dinheiro do consumidor de informação". Assim, do alto do prédio no tradicional endereço paulistano da alameda Barão de Limeira, com a cidade esparramada ao redor, Frias azeita as rotativas para satisfazer os cerca de 1 milhão de leitores fiéis. E atrair mais. Você assumiu a direção do jornal muito jovem, aos 27 anos. O que considera como maiores transformações na publicação nesses mais de 20 anos? Difícil responder... Já se passou um tempo longo, houve muitas mudanças. Vejo alguns aspectos em que notoriamente houve uma mudança muito grande e não foi só no caso da Folha, mas dos jornais de modo geral. Eu diria que o escopo da cobertura se ampliou muito. A gama de assuntos cobertos habitualmente aumentou, e essa foi uma mudança grande. Acho que certo processo de profissionalização no exercício do jornalismo, que já vinha ocorrendo anteriormente, claro, se acentuou nesses últimos 25 anos. São dois aspectos muito notórios. E sobre a sua experiência, faria tudo novamente do mesmo jeito? Há algo que destacaria - isso eu faria totalmente diferente? Cometi muitos erros no varejo, mas no atacado, numa perspectiva mais geral, não consigo distinguir algo que fizesse muito diferente. Até porque as grandes decisões acabam sendo tomadas muito por força das circunstâncias, da conjuntura. O raio de arbítrio pessoal nas grandes decisões sempre é muito pequeno e até por essa razão, acho que as grandes decisões foram tomadas num sentido em que tinham de ocorrer mesmo. Você implantou uma série de mudanças na Folha e, de certa maneira, se tornou um modelo para outros jornais também. Como descreve seu estilo de gestão? Um grupo de pessoas que passou pela Folha contribuiu para esse período das últimas décadas. Muitas delas, inclusive, ainda estão por aqui. Sem nenhuma falsa modéstia - Mário de Andrade dizia que toda modéstia é falsa - diria que não foi tão baseada na minha pessoa. Foi um grupo grande de pessoas que participaram, em diferentes momentos, diferentes fases decisórias do jornal... Procurei reunir talentos, pessoas que dessem contribuição em diferentes áreas do jornal. A Folha tem essa tradição de pluralidade interna, de distintos pontos de vista e isso se reflete nos colunistas com diferentes posições, no espectro das opiniões. O que destacaria como divisores de águas na história do jornal? Momentos históricos, como a campanha pelas Diretas? Houve vários. Um deles foi o momento em que o meu pai, Otávio Frias de Oliveira, auxiliado pelo Cláudio Abramo e sua equipe, empreendeu uma reformulação no jornal nos anos 70, no sentido de politizá-lo mais. O jornal foi adquirindo um tom mais crítico, com mais autonomia editorial. Isso coincidiu com o início do processo de distensão do governo Geisel. A campanha pelas Diretas Já, como você bem lembrou, em 1984, o período de enfrentamento que houve entre a Folha e o Collor, também foram importantes para o jornal.
Há quem diga que a oposição, no Brasil, é feita pela mídia? Faz-se jornalismo de campanha, de denuncismo. O presidente do Senado, José Sarney, defende-se de acusações dizendo que a mídia faz campanha contra ele. Como vê o jornalismo praticado hoje? Comecei profissionalmente na imprensa em 1975, 1976. O período anterior, conheci por meio de referência de livros e relatos de pessoas. Mas sou otimista. Acho que a imprensa brasileira, de modo geral, hoje é melhor do que era quando eu estava no início da profissão. Acho que, do ponto de vista técnico, os parâmetros em geral melhoraram; os jornais se desenvolveram, são mais completos; na maior parte das vezes, mais bem feitos. Acho que houve uma evolução grande no desenvolvimento do jornalismo. Talvez, no passado, houvesse talentos individuais que se destacavam de forma nítida e, hoje, o que ocorre é que o desempenho médio é melhor do que foi no passado. Ainda há problemas, claro, falhas. Eu mesmo sou muito crítico ao trabalho da imprensa, ao trabalho que a Folha faz. Mas, numa perspectiva histórica, acho que houve uma evolução muito positiva: os jornais são mais bem impressos, têm recursos de edição que antes não havia. Os jornais têm uma atitude de preocupação maior com a isenção do que havia no passado; eu também discordo de muitas pessoas da profissão que acham que o nível do texto piorou. Não é a impressão que eu tenho. Embora houvesse, no passado, grandes figuras, grandes vultos humanísticos no jornalismo, pessoas que tinham talento para escrever e se desenvolvido de uma maneira autodidática, na média, o texto da imprensa brasileira é hoje melhor. A questão do diploma não é um ponto que vai definir a qualidade do texto dentro da redação? Não acho. Acho que você tem pessoas talentosas e bem preparadas para exercer o jornalismo - tanto entre formados em comunicação, como entre os que fizeram algum outro curso superior e que, por alguma razão, vieram a atuar em jornalismo. Cada caso é um caso e acho que, mais importante do que ter ou não um diploma, é se difundir uma mentalidade de que os jornalistas fazem parte de uma profissão em que realmente é muito importante que a pessoa continue estudando para sempre, indefinidamente. Cada matéria que fazemos é um verdadeiro estudo; você tem que ler, se preparar... Você acha que o perfil do leitor mudou muito nesses últimos anos? Boa pergunta. Não fiz um estudo comparativo. (No caso da Folha, fazemos estudos periódicos encomendados pelo Datafolha, chamados 'perfis do leitor', pesquisas bastante exaustivas feitas com o leitor da Folha para definir as condições de vida econômica, atuação profissional, posição política, preferências culturais. Não fiz uma comparação, que talvez seria interessante de se fazer para interpretar como essas características evoluíram ao longo do tempo. Mas algumas coisas me parecem claras, por exemplo, as pessoas dedicam um tempo médio menor à leitura do jornal do que anteriormente, por pressões da vida contemporânea, pelo fato de que a atenção das pessoas está sendo solicitada por diferentes veículos, diferentes plataformas. Algumas delas, que não existiam até dez, 15 anos atrás. O leitor tem mais dificuldade para ler um texto mais longo, analítico? Depende de que tipo de leitor. Nos anos 60, a Folha tinha talvez 150, 200 mil exemplares. Era um público menor do que veio a ser nos anos 90, quando chegamos a alguns períodos de pico, uma circulação média de mais de 500 mil exemplares, e mesmo de hoje, quando temos uma circulação em torno de 300 mil exemplares, dependendo do mês que se tomar (considerando três leitores por exemplar). Diria que houve uma expansão do universo das pessoas que consomem jornalismo de uma forma ou de outra - seja porque a população cresceu, a audiência das televisões cresceu, seja porque a própria circulação dos jornais e das revistas em relação a décadas passadas também cresceu e surgiram novas plataformas de divulgação jornalística. A própria TV a cabo, a internet, novas modalidades de publicação setorizada; houve uma explosão do universo midiático nesses últimos 20 anos, ou 10 anos. E tenho a impressão de que o leitor médio dedica menos tempo a cada uma das plataformas, justamente porque está sendo solicitando por um número maior de plataformas. Se tornou mais dispersivo. Como a redação da Folha de S.Paulo se preparou (ou está se preparando) para a evolução tecnológica? Nós temos uma atuação forte na internet por conta do UOL (a Folha tem o controle da gestão e uma participação acionária importante), e também por conta do Folha Online, que é a plataforma da folha na internet. Temos feito o que tem sido a tendência em termos jornalísticos, ou seja, desenvolver as plataformas simultaneamente, propiciar tanto quanto possível a integração e a combinação dos esforços das equipes que estão trabalhando nas duas plataformas e procurar explorar as possibilidades mais importantes que cada uma oferece. O noticiário mais imediato, de consumo mais instantâneo, aparece desde logo na plataforma eletrônica e o jornal tende cada vez mais a ser uma espécie de revista diária, em que os fatos mais importantes das últimas 24 horas se decantam e recebem um tratamento um pouco mais analítico, mais interpretativo. Nessa direção. Os sites e portais ameaçam, de alguma maneira, o impresso no sentido de tirar leitores? Acho que aumentou a concorrência em todos os sentidos, inclusive nesse. É uma competição cada vez maior. Isso não significa, a meu ver, que os jornais impressos não tenham certas vantagens que vai demorar para serem substituídas, se é que serão algum dia. Portabilidade, a comodidade de uso... Se pode derrubar café no jornal, se pode levar o jornal para a praia, dobrar, amassar... Tem uma vantagem física que é difícil de ser substituída. Mas parcialmente substituído, já está acontecendo. E o grande drama do futuro do jornalismo é esse: como será possível organizar, no ambiente eletrônico, um modelo de negócios que permita sustentar uma operação relativamente cara como é a feitura de um jornal de qualidade, seja no suporte papel, seja no suporte da tela. Fazer um jornalismo que se proponha a ser de qualidade é caro. Ainda não está claro qual é o modelo de negócios que vai permitir sustentar essa operação relativamente cara na internet. Isso é a grande dúvida, a grande interrogação. A crise que está ocorrendo nos Estados Unidos no impresso pode chegar aqui? Não acredito que vá chegar de forma tão aguda como a que está acontecendo lá. A penetração da internet nos Estados Unidos é muito maior e está ocorrendo de maneira mais rápida e fulminante do que aqui no Brasil. Por outro lado, acho que os jornais americanos cometeram muitos erros, décadas e décadas com estruturas muito pesadas, onerosas. Eles se mal-acostumaram com opulência e desperdício. Acredito que essa crise, em alguma medida, afetará também os brasileiros, mas não com essa rapidez, com essa proporção. Em resumo, aumentou a competição pelo interesse, pela atenção, pelo tempo do consumidor de informação e, como sempre que isso ocorre, os veículos mais competentes em cada uma das plataformas tenderão a se consolidar, até ganhar mercado. Os veículos menos competentes correrão riscos, até de vir a desaparecer. A comercialização do conteúdo na internet é um caminho? É preciso explorar esse caminho, sem dúvida, porque o jornalismo de qualidade é caro e precisa ser financiado de alguma forma. Realmente, pagar pelo conteúdo é um recurso do qual não se pode abrir mão; até porque a publicidade na internet, embora esteja crescendo numa velocidade intensa, comparativamente, ainda é um fenômeno por ocorrer. A velocidade na internet ainda é acanhada. Ainda falta mais capacitação para o profissional que vende espaço na internet? Ele tem o mesmo argumento de venda que tem o vendedor de impresso? Talvez. Conheço pouco a área de publicidade, mas talvez seja um problema. É possível, também, que a audiência na internet pulverize demais. Exceto naquelas páginas onde existe grande trânsito de pessoas, normalmente as home pages dos grandes portais, à medida em que você vai para outros sites e janelas, tenho a impressão de que a audiência se espalha muito. E com a audiência pulverizada, você não consegue cobrar um preço expressivo pela publicidade. Talvez essa seja uma explicação para o crescimento tímido. Também é um meio novo, que está se firmando. Uma das vantagens do jornalismo impresso sobre a internet parece ser que ele tem credibilidade, peso, prestigio, imagem maior. Os furos jornalísticos continuam sendo dados quase que invariavelmente pelos veículos que provêm de mídias mais clássicas (jornais ou revistas). O jornalismo na web tem consistência ou falta muito? Há algumas ilhas de qualidade, mas na maioria dos casos, o jornalismo feito na internet é muito superficial, faccioso, parcial. Um pouco próprio da natureza do meio. A internet se presta muito à difusão espontânea de ideias, imagens, opiniões, é uma cacofonia; e nesse meio, tem a algumas ilhas que procuram fazer um jornalismo mais criterioso, mais responsável e tem muita gente fazendo um jornalismo que é mera expressão de opinião pessoal, de crítica, de desabafo, algo legítimo que, do ponto de vista jornalístico, pode ser bastante criticável. Qual é o maior concorrente da Folha hoje? Tradicionalmente, o Estado, embora a nossa circulação hoje em dia seja 40% superior à do Estado, eles não deixam de ser nosso principal concorrente. Eles circulam, são editados na mesma cidade, disputam o mercado publicitário quase que centímetro a centímetro; então, é nosso principal concorrente do ponto de vista comercial. Hoje em dia, existe uma competição cruzada, os jornais o tempo todo competindo ao mesmo tempo. Qual é a fatia ocupada pela Folha no bolo publicitário? Praticamente 50%, se considerarmos Folha (46%, 47%) e Estado (52%, 53% do mercado), obviamente considerando o universo publicitário ocupado pelos dois jornais. Uma situação quase de paridade, embora a nossa circulação seja 40% maior. Essa discrepância se explica: na cidade de São Paulo, a circulação é quase a mesma - a Folha livra uma vantagem maior no interior do Estado e nos outros Estados da Federação. O grosso para jornais como Folha e Estado se concentra na cidade de São Paulo. Quantas unidades de negócio formam o Grupo? Temos, hoje, a Folha de S.Paulo, o Agora e a Folha Online, na empresa que compõe a Folha. No mesmo guarda-chuva estão Datafolha, Agência Folha, Transfolha, a editora Publifolha, a Livraria Virtual, que é ligada ao Publifolha. Além disso, a Folha tem uma participação expressiva, 1/3, no UOL, e tem metade do Valor Econômico, em sociedade com a Globo; a gráfica Plural, com a Quad Grafics e a distribuidora SPDL em sociedade com o Estado (medida interessante que os dois jornais adotaram e tem sido muito útil). Que lugar a preocupação em cativar o leitor jovem ocupa no jornal? Nós procuramos conhecer esse leitor, pesquisar para saber como essas reações acontecem. O Folhateen tem um grupo de adolescentes que se reúne semanalmente e funciona como um conselho de leitores para discutir, apresentar sugestões; uma câmara de repercussão, um círculo de leitores. Há dois anos, temos organizado equipes da redação, grupos de leitores escolhidos por representarem estatisticamente certos segmentos de idade, faixa de interesse, sexo... É muito útil para aproximar um pouco as pautas às edições do leitor real. Isso ocorre com as diversas editorias: o projeto chamado Círculo de leitores. Apostam na segmentação? Sim, dentro do possível. Estamos sempre procurando localizar nichos de leitura de interesse publicitário. Um bom exemplo disso é a revista Serafina, que circula mensalmente, feita a partir de uma sugestão do Nizan Guanaes, cuja agência, Africa, passou a ter a conta da Folha. Ele achava que havia uma oportunidade publicitária nesse nicho. E, de fato, a revista tem ido muito bem.
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