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Qualidade premiada

Por Rodrigo Rodrigues

O braço editorial da Imesp conquista a crítica com obras de resgate de artistas e períodos históricos do país

Grandes crises globais fazem parte da biografia da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp). Com 118 anos de existência, a empresa já passou pelas maiores turbulências do último século. Foram duas guerras mundiais, a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, o choque do petróleo, as crises russa e asiática, e a desvalorização cambial no Brasil, em 1998.

Com essa forte vocação para a sobrevivência, não é de estranhar que um negócio, cujo acionista majoritário é o Estado, tenha registrado lucro líquido de R$ 71,7 milhões no ano passado, apesar da crise. Em 2009, enquanto a maioria das empresas brasileiras ainda conta os prejuízos do desaquecimento econômico, a Imprensa Oficial atingiu R$ 56 milhões em lucro líquido e decidiu, antecipadamente, distribuir R$ 13 milhões em dividendos aos acionistas, referentes ao primeiro semestre.
 
Apesar de os serviços gráficos ainda serem a principal fonte de renda, desde 2003, a Imprensa Oficial se aventura com sucesso pelo mercado editorial, lançando publicações elogiadas pela crítica especializada. Uma das razões para o êxito foi a escolha acertada de não competir com o mercado privado. "Excluímos a edição de poesia e ficção, ficando apenas com obras que trouxessem alguma contribuição cultural para o Brasil", explica Hubert Alquéres, presidente da Imesp.

Braços dados

Um dos filões explorados pelo braço editorial da empresa é o dos livros documentais, que reproduzem momentos históricos do país. A parceria com universidades e museus produziu várias coleções fartamente ilustradas com fotos e documentos que chamam atenção pela criatividade dos projetos gráficos e a qualidade de impressão.

As coedições, como são chamadas, já renderam à Imesp 15 prêmios Jabutis, o maior do mercado editorial brasileiro, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Na premiação de 2007, a editora faturou três estatuetas: melhor tradução, melhor teoria/crítica literária e melhor livro de contos e crônicas. Dois desses prêmios são frutos da parceria com as Universidades Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo (USP) e Federal de Minas Gerais (UFMG). No ano passado, mais uma obra foi premiada pela CBL:

"Noticiário geral da photografia paulistana 1839-1900". A obra conquistou o Jabuti de melhor livro de arquitetura, urbanismo e fotografia e foi coproduzido pelo Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.
Do catálogo de 600 obras da Imesp, cerca de 60% corresponde a coedições. Os principais parceiros acadêmicos são Edusp e Humanitas (ambos, selos editoriais da USP), e as editoras da Unicamp, Unesp, UFMG, UFSCAR e Universidade Metodista de São Paulo. Entre 2007 e o primeiro semestre deste ano, foram publicadas quase 130 coedições, que renderam, inclusive, dois prêmios internacionais para a empresa: o Printing Industries of America, concedido pela associação da indústria gráfica dos Estados Unidos, e o da União Latina de Traduções Científicas, promovido pela CBL.

Os critérios de escolha dos títulos variam de acordo com a relevância histórica, a trajetória dos autores e sua visibilidade no mercado. Segundo Alquéres, 3% de todas as obras publicadas pela I.O. são distribuídas em presídios, escolas e universidades públicas do Estado de São Paulo.

Coleções aplaudidas

Além das coedições, as coleções próprias da editora também tentam resgatar a memória de períodos e trajetórias profissionais relevantes para as artes e espetáculos. A Coleção Aplauso é a mais conhecida delas e tem mais de 160 livros publicados, totalizando mais de 61 mil exemplares vendidos. As obras registram os trabalhos de artistas e diretores de cinema, teatro e televisão. São perfis, biografias, entrevistas e até roteiros de filmes e peças de teatro, escritos por jornalistas, críticos e cineastas.
 
Idealizada em 2004, sob a supervisão do crítico de cinema Rubens Ewald Filho, a coleção homenageou nomes como Anselmo Duarte, primeiro e único diretor brasileiro a faturar a Palma de Ouro no Festival de Cannes (em 1962), e os dramaturgos Gianfrancesco Guarnieri, Sílvio de Abreu e Maria Adelaide Amaral. A Aplauso também foi finalista do prêmio Jabuti do ano passado, com o livro que retrata os 50 anos de carreira do ator Raul Cortez, morto em 2006. "Nosso principal objetivo é resgatar informações que corriam o risco de desaparecer por falta de interesse comercial ou recursos. Todos esses prêmios são o reconhecimento do compromisso público que a editora tem", comemora Alquéres.  Alguns volumes da Coleção Aplauso, como o que conta a carreira do cineasta Fernando Meirelles, devem ganhar versões em espanhol e francês, graças à participação da empresa em feiras internacionais como a de Frankfurt e a de Guadalajara.

Respeito suprapartidário

A Imesp acumula 37 prêmios Jabutis e vários outras premiações literárias pelo Brasil. A editora também desenvolve projetos com Organizações Não Governamentais (ONGs), publicando material educativo e de utilidade pública. A maioria desses livros não resulta retorno financeiro imediato, mas traz prestígio à editora. Cerca de 80% do faturamento ainda é oriundo de trabalhos gráficos feitos para secretarias de governo e prefeituras. A impressão do Diário Oficial do Estado, que deu origem à empresa há mais de 100 anos, também é outra rica fonte de receita. O jornal é mantido pela venda de espaços publicitário, divulgando comunicados e balanços empresariais, e pela venda de assinaturas a órgãos estatais e empresas.

O Ministério da Educação e as secretarias de Educação dos vários Estados brasileiros e municípios também são grandes clientes do departamento editorial da Imesp. Aproximadamente 1,2 milhão de livros foram vendidos a esses órgãos em seis anos, segundo o presidente da companhia. A permanência de 12 anos do PSDB no governo do Estado não influenciou os negócios da empresa - Hubert Alquéres garante que as barreiras políticas foram vencidas nesse período. "A Imprensa Oficial se pauta o tempo todo pelo interesse público e não partidário. Temos o respeito de governos de todos os partidos, inclusive do PT, que acaba de comprar um lote de dicionários de libras por intermédio do MEC e sempre nos contratou durante a gestão de Marta Suplicy em São Paulo", pondera Alquéres.

Com a presença da tecnologia no dia a dia dos consumidores, a editora se prepara para entrar na era digital. Até o fim de setembro, deve inaugurar um laboratório de novas mídias, que vai testar e adaptar as obras para formatos eletrônicos de e-books. A intenção da editora também é reformular os canais de venda pela internet. Esse mercado cresceu 27% no Brasil nos primeiros seis meses de 2009, segundo a E-Bit, empresa de monitoramento do comércio eletrônico. "A internet é uma ferramenta essencial para que nossas obras sejam ofertadas em cidades onde não há livrarias convencionais. Hoje o canal online responde por quase 6% de todas as vendas de livros. Até o fim de 2010, pretendemos elevar essa participação para pelo menos 10%", conta o presidente da Imesp. "Apesar da estagnação do mercado neste ano, em 2010 o mercado de livros deve continuar em ascensão como em 2008, impulsionado principalmente pelo e-commerce", prevê.


Imesp em números
Lucro líquido:
2006: R$ 30 milhões
2007: R$ 47 milhões
2008: R$ 71,7 milhões
1º semestre 2009: R$ 56 milhões

Repasse de dividendos aos acionistas:
2006: R$ 15 milhões
2007: R$ 22 milhões
2008: R$ 36 milhões
1º semestre 2009: R$ 13 milhões


Diário Oficial na era digital

Secretário adjunto de Educação do Estado de São Paulo por quatro anos, Hubert Alquéres chegou à Imprensa Oficial depois de supervisionar a implantação da informática na rede pública de ensino, no governo Mário Covas. Para o presidente da Imprensa Oficial, a tecnologia que revoluciona o mercado de música também afetará as editoras. Por orientação dele, a companhia participa periodicamente das reuniões da CBL (Câmara Brasileira do Livro) que discutem as mudanças tecnológicas no setor. Segundo ele, os atuais aparelhos de e-books disponíveis no mercado - como o Kindle, da Amazon, e o Sony Reader - ainda não são definitivos e precisam de aperfeiçoamento.

Apesar disso, a Imprensa Oficial já projeta a distribuição de um e-books para cada assinante do Diário Oficial do Estado, a fim de eliminar a tiragem de mais de 20 mil exemplares diários. "São milhares de árvores usadas todos os dias, que custam para a empresa e para a natureza. Não tem sentido manter isso com a presença da tecnologia em todas as atividades cotidianas", conta Hubert Alquéres. O Diário Oficial já está disponível para download no site da editora todos os dias. O próximo passo da empresa é disponibilizar os livros da Coleção Aplauso, assim como já acontece com as obras em parceria com ONGs. "É a nossa forma de praticar responsabilidade social e firmar o nome da Imprensa Oficial como empresa de interesse realmente público", afirma Alquéres.

 
 
 
 
 
  
   
 


 
 
   
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