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Canudo polêmico

Por Antonio Carlos Santomauro

O STF acabou com a exigência do diploma. A situação nas redações ainda não mudou. Pelo menos, por enquanto

A discussão é antiga, muito antiga. Questionar a necessidade, ou não, do diploma para praticar um jornalismo de qualidade vem dos tempos em que a primeira faculdade de Jornalismo foi fundada - a Cásper Líbero, em 1947.  Apesar do grau de previsibilidade, anunciada no último dia 17 de junho, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de suspensão da obrigatoriedade do canudo para o exercício da profissão provocou incertezas e também gerou alguns fatos mais acentuadamente polêmicos e até questionáveis. Surgiram, por exemplo, informações sobre concursos públicos nos quais, para concorrer a uma vaga de jornalista, bastava aos candidatos comprovar o ensino médio.

A extinção da obrigatoriedade do diploma causou transtornos até para os recém-formados. Nos primeiros meses após essa decisão, os jovens jornalistas não conseguiram obter registro no Ministério do Trabalho, conhecido como Mtb, pois a concessão desse registro foi suspensa até à publicação, no Diário Oficial, do resultado da sentença judicial (até o fechamento desta edição, essa publicação ainda não havia ocorrido).

Assim, além de encontrar mais dificuldades para uma possível contratação, já que o registro no Ministério é exigência de várias grandes empresas jornalísticas, eles nem sequer puderam sindicalizar-se. Para minimizar esse transtorno para os jornalistas diplomados, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), providenciou uma carta na qual atestava nada ter a opor à contratação desses profissionais.

"A medida é apenas paliativa, pois os sindicatos ainda estão se ajustando à nova realidade", reconhece José Augusto Camargo, presidente do SJSP. Mas ele já antevê como deve ocorrer, no futuro, o processo de filiação sindical de jornalistas: "Provavelmente, qualquer pessoa que venha aqui com registro no Ministério, diplomado ou não, será sindicalizado".

Por enquanto, o vácuo

Há quem preveja total descontrole na atividade e profunda queda na qualidade da produção. Mas, profissionais responsáveis pela área de recursos humanos em grandes empresas de comunicação seguem afirmando não perceber - ao menos, não de maneira imediata - possibilidades de grandes mudanças no processo de seleção e contratação de jornalistas após essa decisão judicial. De certa forma, ela apenas sacramenta uma situação já evidenciada na realidade, em decorrência de medidas judiciais provisórias (antes mesmo da decisão do STF, o Ministério do Trabalho já contabilizava mais de 15 mil pedidos de registros provisórios de jornalistas que trabalham sem diploma).

A Editora Globo, por exemplo, deve manter a posição já anunciada pelos dirigentes do conjunto de empresas componentes das Organizações Globo: "Contrataremos, preferencialmente, formados em jornalismo", enfatiza Vânia Weber, diretora administrativa e de recursos humanos da editora.

A ressalva fica para profissionais de outras áreas que se revelem "talentos natos", também como jornalistas. "Ele precisará escrever muito bem, fazer mesmo diferença, além de ser formado e ter registro no Ministério do Trabalho", diz.

A cada mês, conta Vânia, a Editora Globo contrata uma média de seis jornalistas. E, mesmo após a decisão judicial que extinguiu a obrigatoriedade do diploma para essa atividade, não foi contratado nenhum sem a formação em jornalismo.

Mesmo na redação da Folha de S.Paulo, em que o diploma já não era pré-requisito antes mesmo da decisão do Supremo, os profissionais formados devem continuar sendo a maioria no conjunto de jornalistas, prevê Fábio Chiossi, editor-assistente de treinamento e um dos coordenadores do programa de trainees do jornal. "Eles sempre prevalecem nos dois processos por meio dos quais a Folha contrata jornalistas: os programas semestrais de trainees, e os concursos para o preenchimento de vagas temporárias. No programa de trainees, por exemplo, às vezes até dez, entre os 12 selecionados para a etapa final, têm diploma", conta.

O próprio Chiossi, embora formado em economia e filosofia, ingressou na redação da Folha há mais de dez anos. Mas, segundo ele, os profissionais formados ainda compõem cerca de 60% do quadro de jornalistas, no qual hoje atuam aproximadamente 300 pessoas. "E, ao menos em curto prazo, não vejo nada capaz de mudar essa relação entre as quantidades de formados e não formados", acrescenta.

Visões distintas

O argumento de que futuramente prevalecerão os jornalistas com diploma nas redações é questionado por Sérgio Murillo de Andrade, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). "Algumas empresas sabem ser também mais barato contratar profissionais qualificados, até mesmo porque eles geram menos processos jurídicos decorrentes do trabalho de profissionais mal preparados", pondera. "Mas, no Brasil, existem poucas empresas desse gênero", critica.

Andrade prevê queda acentuada na qualidade do produto jornalístico. "Muitos empresários da comunicação, interessados apenas em obter mais lucros, demitirão profissionais formados e os substituirão por outros mais baratos - geralmente sem diploma -, e obviamente menos qualificados", afirma. Ao mesmo tempo, ele observa, a situação da categoria, que já era difícil, ficará ainda mais complicada: "Os casos de desrespeito à legislação, no quesito diploma, eram pontuais, e estavam inclusive submetidos a pendências judiciais. Mas eles serão agora legalizados, e a coisa piorará ainda mais para os jornalistas", projeta.

A exigência da formação específica para o exercício da profissão de jornalista sempre foi considerada pelas entidades sindicais da categoria como fundamental para a qualidade da informação. Além disso, contribuiu para a organização dos profissionais, impedindo a "invasão" das redações por pessoas despreparadas ou apenas preocupadas em ocupar espaço para a defesa de interesses próprios ou de grupos.

Afirmando o contrário, surgiu até um Movimento em Defesa dos Jornalistas sem Diploma, liderado por Antonio Vieira, que tratou de correr e fundar, tão logo o STF decidiu acabar com a exigência do diploma, a Associação Brasileira dos Jornalistas (ABJ).

"No interior dos Estados sempre foi muito forte a presença de profissionais sem diploma, pois nenhum formado quer ir para esses lugares", diz ele, que exerce o jornalismo há 20 anos, apesar de formado em administração de empresas.

Para Antonio Vieira, a decisão judicial apenas regulamentará uma situação que já vinha acontecendo há alguns anos em diversas redações do país.

Como ficam os cursos

Uma possível queda na demanda pelo diploma de jornalismo afetará de maneira mais intensa os cursos menos estruturados e de menor qualidade, crê Pedro Celso Campos, coordenador de ensino de jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Bauru. Já os cursos mais conceituados podem até ser beneficiados: "Sem a reserva decorrente da obrigatoriedade do diploma, restará como diferencial de mercado a qualidade do profissional, e aí se destacam ainda mais as boas escolas", ele justifica.

Coerente com sua visão, ele hoje trabalha em um projeto de reformulação do jornalismo da Unesp. O curso poderá ter sua duração aumentada, dos atuais quatro anos para quatro e meio ou até cinco. A intenção, segundo Campos, é incluir uma dose maior de disciplinas optativas - permitindo ao aluno escolher, de maneira mais fundamentada, o campo do jornalismo que realmente o atrai -, e aproximar mais das práticas cotidianas da atividade as disciplinas de interesse mais geral, como sociologia, antropologia e psicologia.

A Cásper Líbero também deve promover mudanças em seu curso de jornalismo, para nele conceder mais atenção às possibilidades de atuação dos profissionais nos formatos surgidos a partir da evolução de tecnologias de comunicação desenvolvidas mais recentemente, como internet e celulares. "Já considerávamos essas mudanças desde o ano passado, pois o jornalismo é uma das atividades que muda mais rapidamente", explica Carlos Costa, coordenador do curso de jornalismo.

Segundo ele, a instituição de ensino deve lançar, já em 2010, um curso de pós-graduação para profissionais formados em outras áreas, com interesse no jornalismo. Mas Costa não crê no fim dos cursos de graduação para jornalistas após a extinção da obrigatoriedade do diploma. Afinal, lembra, o curso da Cásper foi criado em 1947, portanto existiu durante mais de 20 anos sem a obrigatoriedade do canudo, instituída em 1969. "E esse curso é ainda o caminho mais adequado para quem quer atuar nessa atividade", finaliza.

 
 
 
 
 
  
   
 


 
 
   
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