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Seu negócio é dialogar

Por Eduardo Shor

Um dos maiores especialistas em comunicação empresarial do mundo lança primeira obra em português

São mais de 250 artigos e capítulos publicados em revistas e jornais sobre a atividade. E ainda há o que falar ou escrever, depois de 40 anos dando aulas a respeito da profissão na Universidade de Maryland, nos EUA. O assunto relações públicas começa dentro dos limites da própria casa de Grunig. Sua esposa também é professora e realiza um estudo relacionado à participação do público feminino como protagonista na evolução da história da comunicação organizacional norte-americana.

"Nos EUA, em torno de 80% dos profissionais de relações públicas são mulheres. No Brasil, elas também são maioria. Entretanto, nos dois países há situações de salários menores que os dos homens ou funcionárias que não alcançam cargos maiores na empresa. Eu não ficaria surpreso se houvesse casos de equipes de 20 mulheres e um homem, em que o funcionário do sexo masculino seja o chefe da equipe. Minha esposa estuda propostas e soluções para questões como essas, para fortalecer as profissionais", explica.

A primeira vez que Grunig esteve no Brasil foi há nove anos, para o I Congresso da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje). PhD em Comunicação de Massa pela Universidade de Wisconsin, nos EUA, também é formado em Jornalismo e trabalhou em agências governamentais. No entanto, sua carreira foi, majoritariamente, dedicada a Relações Públicas, tendo prestado consultoria em empresas como AT&T, Black&Decker, American Alliance for Health, entre outras.

Aos 67 anos, Grunig está aposentado. Mas, apesar de não dar mais aulas na universidade, continua participando constantemente de debates, palestras e conferências em diversos continentes - ao todo, 43 países. Em março, esteve na Turquia; em setembro do ano passado, na Romênia. Em outubro, foi a vez da Nigéria. "Ainda que os países tenham diferentes características, no mundo globalizado o profissional de relações públicas jamais poderá deixar de avaliar, na organização, as influências da cultura de um país, o sistema político, o econômico, o nível de desenvolvimento nacional, o trabalho da mídia e a abrangência do ativismo, como a ação de sindicatos e outros grupos", estabelece.

Em sua visita ao Brasil, em agosto, o ponto alto da agenda foi o lançamento do livro Relações públicas: teoria, contexto e relacionamento (Difusão Editora), em conjunto com os professores brasileiros Maria Aparecida Ferrari e Fábio França, doutores em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Depois de escrever seis livros e editar outros cinco, a obra é a primeira de Grunig a ser traduzida para a língua portuguesa.

O livro apresenta um conjunto de teorias sobre a prática da atividade de Relações Públicas e, segundo Grunig, a maior pesquisa internacional já realizada sobre o processo da comunicação nas organizações. Entrou em contato com mais de 300 empresas, para as quais enviou questionários de avaliação a presidentes, diretores, gerentes de comunicação e profissionais de diversas áreas. O objetivo era identificar como as organizações praticavam as Relações Públicas e quais das práticas possuíam maior probabilidade de tornar as instituições mais eficazes. Os questionários foram preenchidos por 407 executivos, 292 CEOs ou executivos graduados e 4.631 funcionários. A pesquisa quantitativa foi seguida de entrevistas qualitativas com representantes de 25 empresas com, a mais alta e mais baixa pontuação no índice de excelência.

Crise bem-vinda

Grunig considera o profissional de Relações Públicas como uma pessoa que avalia as consequências das decisões tomadas pela corporação e ajuda a reduzir riscos e custos. "O profissional das Relações Públicas está sempre exposto a riscos e contextos vulneráveis. O que ele precisa é aprender a lidar com isso de maneira estratégica e gerencial. As crises são interessantes para quem atua no setor porque criam oportunidades e demonstram a importância de um relacionamento adequado com os diversos públicos da empresa. Por isso, é uma área na qual se deve ter, principalmente, responsabilidade social", afirma.

Nos últimos 20 anos, conta, o governo americano vem tentando modificar algumas regras do setor de seguros de saúde nos EUA, mas as empresas de seguros resistem às reformas. "O debate vai e volta. Possivelmente, elas não conseguirão manter a mesma estrutura para sempre. E as companhias deverão estar preparadas para lidar com as demandas que surgirão de seus públicos, após as transformações da lei."

Ele destaca, ainda, que é preciso imaginar possibilidades, traçar cenários. "Uma forma muito interessante de exercício é olhar o passado. Em anos anteriores, também aprendemos muito com crises que servem de exemplo. As empresas não podem ficar estagnadas, nem mesmo em época de relativa calmaria. A bolha da internet estourou e muitos tiveram prejuízos. O mercado se transforma, a legislação muda, e isso afeta os negócios e os relacionamentos. É como se diz: os fabricantes de chicote têm que tentar prever quando os automóveis substituirão os cavalos."

Grunig garante que, com a estratégia de comunicação, o profissional de RP pode contribuir até mesmo para o aumento da receita da empresa, permitindo que clientes satisfeitos consumam novos produtos. "Um relacionamento bem construído com os funcionários é capaz de diminuir as chances de greve e melhorar a qualidade do serviço oferecido ao consumidor. Também é possível conciliar interesses com sindicatos e associações, evitando boicotes ou processos na Justiça", conclui.


Confira um trecho do livro:

"Os funcionários querem que a organização proporcione empregos gratificantes. Os ambientalistas exigem que a organização preserve a natureza. As agências governamentais insistem em produtos seguros. (...) As comunidades querem ar puro, menos trânsito. (...) As organizações provavelmente não se preocupariam com esses objetivos se elas existissem isoladas de seu ambiente. Mas, como elas não existem isoladas, os públicos poderão pressioná-las em prol de suas aspirações. (...) A vida, tanto para as pessoas como para as organizações, consiste em um constante processo de negociação e colaboração. (...) É possível que nem sempre haja um acordo ou um relacionamento amigável, mas as partes entendem uma à outra - e o entendimento é o objetivo primordial das relações públicas."

 
 
 
 
 
  
   
 


 
 
   
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